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Deus conduz a história de cada pessoa.

  • Cláudia Pereira
  • 26 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

José, o filho de Jacob

Na última parte do "Livro do Génesis" (cf. Gen 37-50) aparece-nos um relato que é significativamente diferente, tanto em termos literários como em termos temáticos, - dos capítulos que o precedem. É a história de um homem chamado José ("Yosip" = "Deus acrescenta"), apresentado como filho do Patriarca Jacob. Os estudiosos da Bíblia são unânimes em considerar estes capítulos como um bloco independente, obra de um autor que não tem nada a ver com os "catequistas" que redigiram as histórias sobre Abraão, Isaac ou Jacob (cf. Gen 12-36).


José e seus irmãos. 1670. Bartolomé Esteban Murillo
José e seus irmãos. 1670. Bartolomé Esteban Murillo

De onde vem este texto?.

Provavelmente, a "história de José" era, inicialmente, uma novela, ou mesmo um romance histórico, redigido por volta do séc. X a.C., no sul do país, talvez no ambiente da corte do rei Salomão. José - o herói destes capítulos é apresentado como o filho mais novo de Jacob, de quem os seus irmãos têm ciúmes por causa da preferência que o pai tem por ele.

Aproveitando a presença de José, numa altura em que estão longe de casa e da vigilância do pai, eles capturam esse irmão e lançam-no numa cisterna. Na sequência, José é vendido a uns mercadores que vão a caminho do Egito. No Egito, o escravo José é comprado por um alto personagem da corte. A integridade e a honestidade de José atiram-no para a prisão; mas, a capacidade de José para interpretar sonhos fá-lo cair nas boas graças do Faraó… A sua sabedoria e previdência levam-no a ser encarregado pelo Faraó da governação do Egito. Nessa qualidade, José recebe os seus irmãos, que vão ao Egito comprar mantimentos, mas não reconhecem naquele príncipe egípcio, o irmão que venderam como escravo. Finalmente, José dá-se a conhecer, perdoa aos irmãos, acolhe-os no Egito com Jacob, seu pai, e "salva" a sua família da fome e da miséria.

Como é que esta "novela" - tecida com terríveis intrigas, com desconcertantes traições, com violentas paixões e com intensas emoções - entra no texto bíblico? Porque é que alguém achou oportuno colocá-la neste enquadramento?


José e a esposa de Potifar. 1640-1645. Bartolomé Esteban Murillo
José e a esposa de Potifar. 1640-1645. Bartolomé Esteban Murillo

José prepara o caminho para o nascimento do povo eleito

As tradições sobre os patriarcas (que aparecem nos capítulos 12-36 do Livro do Génesis) situam-nos no cenário geográfico da terra de Canaan; as "tradições sobre a libertação" (que aparecem na sequência, na primeira parte do Livro do Êxodo) situam-nos na terra do Egito. Como é que esse Povo de Deus, nascido com Abraão, passou de uma terra para a outra?

Para preencher esse fosso, esse "buraco" da história, os autores lançaram mão de um romance escrito na época de Salomão por um escritor anónimo e que narrava como um semita chamado José tinha ido para o Egito, tinha ascendido a um ponto importante na administração egípcia e tinha, depois, instalado a sua família na generosa terra do Egito.

A "história de José", não deve ser vista como o relato fiel e exato de acontecimentos históricos sobre um dos filhos do patriarca Jacob... Aliás, o texto não se preocupa em apresentar referências históricas claras e seguras (não identifica, sequer, o faraó que reinava no Egito e que José teria servido: tudo é nebuloso e incerto, sem referências concretas e definidas). Por outro lado, não há nenhum documento egípcio, seja de que época for, que faça referência a um governante do Egito com o nome de José, de origem semita.

A "história de José" será, então, pura ficção literária? Também não. É possível que tenha existido um personagem chamado José que desceu ao Egito, seguido pela sua família; e é possível que esse personagem, depois de várias peripécias, tenha chegado a desempenhar um cargo de relativa importância no aparelho administrativo egípcio. Tal seria o núcleo histórico que deu origem à "história de José". Aliás, o autor deste "romance" mostra conhecer bem o Egito o ambiente, as "cores" locais e mesmo os costumes do país.... De resto, os conhecimentos que possuímos sobre esse período dizem-nos que a entrada de grupos beduinos no Egito e o seu estabelecimento nessa terra era relativamente vulgar.

Um escrito que apareceu na época do faraó Merikare, no final do terceiro milénio a.C. intitulado "Instrução ao faraó Merikare" - recomenda ao rei do Egito que desconfie dos asiáticos que, periodicamente, entram no Egito; e o faraó Armenemnés I irá construir, na zona do atual Suez, uma muralha contra as invasões destes asiáticos.

No séc. XVIII/XVII a.C., o Egito chega a ser militarmente invadido pelos Hicsos, um povo que atravessa o corredor sirio-palestinense para se instalar no delta do Nilo. É possível que seja nesta altura que certos grupos ligados aos clãs de Abraão, Isaac e Jacob se estabelecem no Egito. Os Hicsos acabam por ser expulsos do Egito no séc. XVI a.C.; e, com eles, são expulsos alguns clãs seus aliados, parecidos com os clãs patriarcais. Outros grupos semitas, no entanto, continuaram no Egito (nomeadamente o grupo que, alguns séculos mais tarde, sairá com Moisés).

O "romance histórico" (romance construído à volta de figuras históricas, cujos feitos são exagerados e romanceados) de José, não tem apenas a finalidade de distrair os leitores; mas pretende, também, deixar lições de vida. É um romance "com mensagem", que pretende "formar" os seus leitores. Qual a sua mensagem fundamental?

Em primeiro lugar, o autor deste belo romance sugere claramente que Deus está por detrás de toda a história humana, que Deus está sempre presente nesse caminho que, todos os dias, os seres humanos vão percorrendo. No texto não se fala muito de Deus; mas percebe-se que Ele está sempre presente, como Senhor da história e da vida dos homens… É Ele que, discretamente, conduz toda a trama, até ao final feliz; é Ele que guia os passos do protagonista, que o protege no meio das adversidades que a vida lhe reserva; é Ele que, aproveitando até os erros e os passos mal dados dos homens e das mulheres, refaz a história dos seres humanos no sentido de lhes proporcionar a vida e a salvação; é Ele que transforma um dinamismo de injustiça e de morte, num desígnio de vida e de felicidade para aqueles que nele acreditam.

O Deus em que o autor deste romance acredita e apresenta é, verdadeiramente, o Deus que cuida dos seus filhos, que os acompanha no seu caminho histórico, que salva e liberta os homens e as mulheres mesmo que para isso tenha de "escrever direito por linhas tortas".


José recebendo o anel do faraó. 1733-1735. Giovanni Battista Tiepolo
José recebendo o anel do faraó. 1733-1735. Giovanni Battista Tiepolo

José, o instrumento de Deus

Em segundo lugar, o autor pretende apresentar aos seus leitores, na pessoa de José, a figura e o modelo do homem bom, do homem que Deus ama. José, o protagonista, é o protótipo do homem integro, honesto, puro, sábio, que não se deixa enredar pelas seduções da corte e pelas solicitações do mal, que é capaz de esquecer as ofensas e tratar os "irmãos" com misericórdia e amor, mesmo quando tem razões de queixa contra eles... É o homem que não esquece as suas raízes nem os valores tradicionais, conduzindo sempre a sua vida de acordo com os valores que recebeu da sua família… É o homem que "teme a Deus", que coloca os valores de Deus antes de quaisquer outros valores ou propostas, que nunca se afasta dos caminhos de Deus, mesmo que isso lhe custe o descrédito, a prisão, o sofrimento… É o homem que confia em Deus e que tem a certeza de que Deus não o desiludirá nem o deixará afundar-se. É este "homem" que é proposto, como modelo, aos israelitas do séc. X a.C.

Para que os crentes tenham um motivo mais para acolher este "modelo", o autor não se esquece, por fim, de acenar aos resultados dessa vida de integridade e de fidelidade: Deus - diz ele - recompensa quem assim procede; e a recompensa que Deus concede ao justo pelos seus méritos, acaba por se tornar uma fonte de bênção para toda a "família", para toda a comunidade, para toda a nação.


Deus conduz a história de cada pessoa

Será que Deus conduz a história de cada pessoa?

O caminho que o Povo de Deus percorre pela história, não é sempre um caminho fácil, agradável, linear, isento de riscos e de dramas… É um caminho onde nos deparamos frequentemente com injustiças, com deceções, com incompreensões, e mesmo com perseguição e morte. Convém que esse Povo de Deus que caminha não esqueça, nunca, que Deus está sempre presente e que é Ele que preside à história e à vida dos homens e do mundo. E convém que, mesmo quando não somos entendidos ou aplaudidos, conservemos a coerência e a fidelidade a Deus e aos seus caminhos. Quando conseguimos conduzir dessa forma a nossa vida, o que nos espera no final do caminho não é o fracasso e a morte, mas a Vida plena, a felicidade verdadeira... E a nossa integridade, o nosso compromisso, a nossa constância serão uma fonte de vida e de bênção para o mundo e para todos os outros seres humanos: é este «segredo que os catequistas ajudam as crianças a descobrir.

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