A história da salvação é história de comunhão
- Cláudia Pereira
- 4 de dez. de 2025
- 7 min de leitura
Deus chama-nos a fazer parte do seu Povo
Já sabemos que, na perspetiva do projeto de Deus, os seres humanos não foram criados para viverem isolados… Eles foram criados para a comunhão, para o diálogo, para a partilha, para o amor… O isolamento fecha-nos numa dinâmica de egoísmo estéril e vazio; a comunhão abre-nos à riqueza da partilha, coloca-nos desafios que nos ajudam a crescer, faz desabrochar em nós um dinamismo que nos conduz ao encontro da nossa plena realização. A vocação dos seres humanos – essa vocação inscrita e gravada por Deus no coração de cada homem e de cada mulher – é uma vocação de comunhão.

A história da salvação é história de comunhão
Tendo isto presente, compreendemos que a história da salvação – essa história da intervenção salvadora e libertadora de Deus no caminho dos seres humanos – não podia desenhar-se senão num cenário “comunitário”, onde a descoberta do rosto de Deus pudesse ser continuamente enriquecida e temperada pela partilha de experiências e de perspetivas que a comunidade possibilita… Por isso, a história da salvação vai concretizar-se como história de um Povo que caminha em conjunto, que em conjunto se interroga e se questiona, que em conjunto enfrenta o desafio de procurar o rosto de Deus. Trata-se, certamente, de uma história que inclui todos os povos, que envolve todos os homens e mulheres de todas as raças e de todos os tempos… Não tem como destinatário um grupo específico, em detrimento dos outros; não privilegia uma comunidade em prejuízo de outras… O plano de Deus abraça a humanidade inteira: todos os homens e mulheres têm origem em Deus; a todos, Deus oferece essa “casa” comum, boa para habitar; a todos, Deus convida para integrar a sua “família”; a todos Deus indica caminhos de Vida, de felicidade, de realização plena, pois todos, sem exceção, são seus filhos e filhas…
Contudo, é convicção dos catequistas bíblicos que, num determinado momento da história, a pedagogia de Deus levou-O a escolher um Povo particular, uma determinada comunidade humana, para aí centrar essa
revelação que Ele queria depois oferecer à humanidade inteira. Não se tratou de um privilégio atribuído por Deus a um Povo especial; mas tratou-se de um método – o método que Deus elegeu – para entrar na história humana e para caminhar, na história, com os homens…
Ele apareceu no caminho histórico de um determinado grupo humano, revelou-lhe o seu rosto, deu-lhe a conhecer as suas propostas, para a partir desse Povo chegar aos homens e mulheres de toda a terra. Essa comunidade humana a quem foi entregue o tesouro da revelação de Deus e a quem foi confiada a missão de a testemunhar diante de todos os povos da terra, é o Povo de Israel.
A relação especial de Deus com o povo de Israel
Desde muito cedo, Israel teve a oportunidade de entrever o “rosto” de Deus e de estabelecer com Deus uma relação especial. Ao olhar para os textos bíblicos, podemos perceber que este Povo toma definitivamente consciência da presença de Deus na sua história quando é confrontado com a dramática experiência da escravidão, no Egito. Nessa altura, Israel ainda não é uma nação, mas um grupo de tribos dispersas, com algum parentesco étnico, mas sem uma consciência forte de identidade. Humilhadas e tiranizadas pelos seus opressores egípcios, condenadas à morte, aparentemente sem futuro e sem saída, essas tribos nómadas descobriram que Deus – a quem chamaram Jahwéh – estava apostado em libertá-las e salvá-las… E, de facto, contra toda a lógica humana, os escravos hebreus conseguiram iludir, uma noite, os seus carcereiros e partir ao encontro da liberdade.
Ao longo do caminho, esse grupo humano pôde fazer uma forte experiência da presença de Deus – um Deus que lhes dava alimento e vida, que lhes indicava os caminhos a percorrer, que não os deixava soçobrar nas mãos dos inimigos. Convidado a estabelecer com Deus uma relação de comunhão – ou, como eles diziam, de
“aliança” – este povo aceitou esse convite e comprometeu-se a caminhar sempre pelos caminhos de Deus. Assim, nasceu um Povo que se intitulava “o Povo de Deus”.
O que é que distinguia esta comunidade humana de tantas outras comunidades humanas que, na mesma época e nos mesmos cenários, caminhavam pela história? Israel era um Povo como os outros, ligado por laços étnicos, culturais ou políticos?

Existia, naturalmente, uma certa proximidade étnica entre essas diversas famílias de nómadas que fizeram no Egito uma experiência de escravidão e que, com Moisés, fugiram para a liberdade; mas, na história do Povo bíblico, não foi o fator étnico o elemento decisivo no aparecimento de uma consciência nacional. O “cimento” que juntou e ligou estas tribos dispersas foi a extraordinária experiência da libertação e o encontro com o Deus libertador e salvador. Tratou-se de uma experiência tão marcante, tão aglutinadora, tão decisiva, que Israel passou a identificar-se como “o Povo que Deus libertou e salvou”.
A comunidade israelita nasceu a partir daqui: construiu-se à volta de Deus, dispôs-se à volta de Deus e não se via a caminhar na história em direção ao futuro sem Deus. Enquanto os outros povos estavam ligados por laços étnicos e culturais, Israel privilegiava, como fator potenciador da sua identidade, a mesma experiência de fé, o mesmo Deus.
A catequese de Israel vai, mais tarde, cristalizar esta consciência de que são um povo “à parte” no meio dos outros povos da terra, falando da eleição e da vocação de Israel… Se Israel existe – dizem os seus catequistas – é porque Deus o escolheu “para ser um Povo particular entre todos os povos que há sobre a face da terra” (Dt 7,6; cf. Is 41,8) e o chamou (cf. Is 48,12).
Essa escolha e esse chamamento não vieram do facto de Israel ser um povo forte, numeroso ou cheio de méritos (cf. Dt 7,7; 8,17; 9,4); mas foi o resultado de um amor sem explicação, que ultrapassa a simples lógica humana (cf. Dt 7,8; Os 11,1). Por isso, Deus distinguiu Israel no meio dos outros povos, libertou-o e salvou-o (cf. Dt 6,12; 7,8; 8,14; 9,26). De certo modo, Deus “criou” este Povo, formou-o como uma criança no seio da mãe (cf. Is 44,2.24). Assim, Israel passou a considerar-se o “Povo de Deus”, o Povo criado por Deus, o Povo que pertence a Deus e que caminha com Deus, o Povo que tem como missão testemunhar Deus diante de todos os outros povos.
Utilizando imagens fortes e sugestivas para definir esta realidade, os catequistas bíblicos vão dizer que Israel é o povo santo, consagrado a Jahwéh, posto “à parte” para Ele (Dt 7, 6; 14, 2), a sua herança (Dt 9, 26), o seu rebanho (Sal 80, 2; 94, 7), a sua vinha (Is 5, 1; Sal 80, 9), o seu filho (Ex 4, 22; Os 11, 1), a sua esposa (Os 2,4; Jer 2,2; Ez 16,8). Mais: Israel é definido como um povo de sacerdotes (Ex 19,6), no qual Deus reina sobre súbditos consagrados ao seu serviço.
A função deste “povo sacerdotal” é ser, no meio das outras nações, a testemunha do Deus único (cf. Is 44,8), o povo mediador pelo qual se reatará a comunhão entre Deus e o conjunto da humanidade, de modo que
se eleve a Deus o louvor da terra inteira (Is 45, 14s.23s) e todas as nações participem da bênção de Deus (Gen 12, 3; Jer 4, 2).
Israel aparece, assim, como uma comunidade (‘edah), uma assembleia (qahal) reunida à volta de Deus para lhe prestar culto. Em grego, dir-se-á que Israel é uma “synagogê” ou uma “ekklesia”, o que nos coloca no mesmo âmbito.

As respostas de Israel ao chamamento de Deus
Contudo, apesar de se definir como o “Povo de Deus”, nem sempre Israel soube lidar bem com esta missão a que Deus o chamou. Depois de instalado na Terra Prometida, Israel terá a tendência de se acomodar e sentirá a tentação de imitar os outros povos que o rodeiam. Em certos momentos da sua história, Israel irá abandonar Jahwéh e as suas indicações e irá atrás de outras propostas de felicidade, pensando que, assim poderia construir um futuro “mais moderno” e mais livre. Esquecerá, então, a sua especificidade como “Povo de Deus”, chamado por Deus e consagrado a Deus.
Por outro lado, Israel não conseguirá ignorar a tentação de se construir à volta das estruturas temporais de uma nação particular e, em certos momentos da sua caminhada, irá insistir na sua condição de nação construída à volta de instituições concretas, de leis concretas e de uma história nacional. Acentuar-se-á uma perspetiva nacionalista, em detrimento da perspetiva universalista que é a sua vocação inicial. Ora, essa perspetiva nacionalista corria o risco de obrigar a proposta salvadora de Deus a ficar refém de um povo específico, o que contrariava o projeto de Deus… Seria, portanto, necessário que essa perspetiva fosse ultrapassada. Por isso, os profetas de Israel anunciaram o aparecimento, no futuro, de um novo Povo de Deus, um Povo perfeito e universal, cujo esboço e gérmen era o antigo Israel, mas que iria bem além das fronteiras físicas e nacionais de Israel. Seria, na perspetiva profética, um Povo que teria uma nova lei, inscrita nos corações e não em tábuas de pedra, exteriores ao homem (cf. Jer 31, 33; Ez 36, 27); seria um Povo universal, onde caberiam pessoas de todas as raças e culturas, sem qualquer exceção.
O novo Povo de Deus, anunciado pelos profetas, começa com Jesus Cristo. Ele, o Deus que veio ao mundo e que “construiu a sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14), tinha como objetivo apresentar-nos uma proposta de vida e de salvação destinada a todos os homens e mulheres, de todas as raças e culturas, sem qualquer exceção. Foi essa proposta que os seus discípulos levaram a toda a terra, ignorando as fronteiras e barreiras que dividiam os povos e as nações. A partir de então, o que é decisivo, não é a raça, nem a cultura, nem o ter nascido dentro de determinadas fronteiras físicas, mas o acolhimento da proposta de Jesus, do seu “evangelho”. O novo Povo de
Deus é constituído por todos aqueles que escutam a Palavra de Jesus e que aceitam o convite para O seguir nesse caminho de amor radical, de entrega total, de serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos.
Dessa “resposta” positiva à proposta que Deus apresenta em Jesus Cristo, nasce uma “comunidade de salvação”, uma “Igreja” (do grego “ekklesia”), uma família de irmãos e de irmãs que têm como missão ser sinal e anúncio da salvação de Deus no meio do mundo. Essa comunidade vive no tempo e peregrina na história; mas caminha para Deus e anuncia esse novo céu e essa nova terra que Deus quer oferecer a todos os seus filhos e filhas. É esse mesmo caminho que o catequista experimenta e propõe na catequese.
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Que Deus vos proteja e abençoe por toda a eternidade.




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