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A história da salvação é história de comunhão

  • Cláudia Pereira
  • 4 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Deus chama-nos a fazer parte do seu Povo

Já sabemos que, na perspetiva do projeto de Deus, os seres humanos não foram criados para viverem isolados… Eles foram criados para a comunhão, para o diálogo, para a partilha, para o amor… O isolamento fecha-nos numa dinâmica de egoísmo estéril e vazio; a comunhão abre-nos à riqueza da partilha, coloca-nos desafios que nos ajudam a crescer, faz desabrochar em nós um dinamismo que nos conduz ao encontro da nossa plena realização. A vocação dos seres humanos – essa vocação inscrita e gravada por Deus no coração de cada homem e de cada mulher – é uma vocação de comunhão.


A Crucificação. 1656-1746. Francesco Trevisani
A Crucificação. 1656-1746. Francesco Trevisani

A história da salvação é história de comunhão

Tendo isto presente, compreendemos que a história da salvação – essa história da intervenção salvadora e libertadora de Deus no caminho dos seres humanos – não podia desenhar-se senão num cenário “comunitário”, onde a descoberta do rosto de Deus pudesse ser continuamente enriquecida e temperada pela partilha de experiências e de perspetivas que a comunidade possibilita… Por isso, a história da salvação vai concretizar-se como história de um Povo que caminha em conjunto, que em conjunto se interroga e se questiona, que em conjunto enfrenta o desafio de procurar o rosto de Deus. Trata-se, certamente, de uma história que inclui todos os povos, que envolve todos os homens e mulheres de todas as raças e de todos os tempos… Não tem como destinatário um grupo específico, em detrimento dos outros; não privilegia uma comunidade em prejuízo de outras… O plano de Deus abraça a humanidade inteira: todos os homens e mulheres têm origem em Deus; a todos, Deus oferece essa “casa” comum, boa para habitar; a todos, Deus convida para integrar a sua “família”; a todos Deus indica caminhos de Vida, de felicidade, de realização plena, pois todos, sem exceção, são seus filhos e filhas…

Contudo, é convicção dos catequistas bíblicos que, num determinado momento da história, a pedagogia de Deus levou-O a escolher um Povo particular, uma determinada comunidade humana, para aí centrar essa

revelação que Ele queria depois oferecer à humanidade inteira. Não se tratou de um privilégio atribuído por Deus a um Povo especial; mas tratou-se de um método – o método que Deus elegeu – para entrar na história humana e para caminhar, na história, com os homens…

Ele apareceu no caminho histórico de um determinado grupo humano, revelou-lhe o seu rosto, deu-lhe a conhecer as suas propostas, para a partir desse Povo chegar aos homens e mulheres de toda a terra. Essa comunidade humana a quem foi entregue o tesouro da revelação de Deus e a quem foi confiada a missão de a testemunhar diante de todos os povos da terra, é o Povo de Israel.


A relação especial de Deus com o povo de Israel

Desde muito cedo, Israel teve a oportunidade de entrever o “rosto” de Deus e de estabelecer com Deus uma relação especial. Ao olhar para os textos bíblicos, podemos perceber que este Povo toma definitivamente consciência da presença de Deus na sua história quando é confrontado com a dramática experiência da escravidão, no Egito. Nessa altura, Israel ainda não é uma nação, mas um grupo de tribos dispersas, com algum parentesco étnico, mas sem uma consciência forte de identidade. Humilhadas e tiranizadas pelos seus opressores egípcios, condenadas à morte, aparentemente sem futuro e sem saída, essas tribos nómadas descobriram que Deus – a quem chamaram Jahwéh – estava apostado em libertá-las e salvá-las… E, de facto, contra toda a lógica humana, os escravos hebreus conseguiram iludir, uma noite, os seus carcereiros e partir ao encontro da liberdade.

Ao longo do caminho, esse grupo humano pôde fazer uma forte experiência da presença de Deus – um Deus que lhes dava alimento e vida, que lhes indicava os caminhos a percorrer, que não os deixava soçobrar nas mãos dos inimigos. Convidado a estabelecer com Deus uma relação de comunhão – ou, como eles diziam, de

“aliança” – este povo aceitou esse convite e comprometeu-se a caminhar sempre pelos caminhos de Deus. Assim, nasceu um Povo que se intitulava “o Povo de Deus”.

O que é que distinguia esta comunidade humana de tantas outras comunidades humanas que, na mesma época e nos mesmos cenários, caminhavam pela história? Israel era um Povo como os outros, ligado por laços étnicos, culturais ou políticos?


A fuga dos israelitas do Egito. 1617. Benedetto Turchi
A fuga dos israelitas do Egito. 1617. Benedetto Turchi

Existia, naturalmente, uma certa proximidade étnica entre essas diversas famílias de nómadas que fizeram no Egito uma experiência de escravidão e que, com Moisés, fugiram para a liberdade; mas, na história do Povo bíblico, não foi o fator étnico o elemento decisivo no aparecimento de uma consciência nacional. O “cimento” que juntou e ligou estas tribos dispersas foi a extraordinária experiência da libertação e o encontro com o Deus libertador e salvador. Tratou-se de uma experiência tão marcante, tão aglutinadora, tão decisiva, que Israel passou a identificar-se como “o Povo que Deus libertou e salvou”.

A comunidade israelita nasceu a partir daqui: construiu-se à volta de Deus, dispôs-se à volta de Deus e não se via a caminhar na história em direção ao futuro sem Deus. Enquanto os outros povos estavam ligados por laços étnicos e culturais, Israel privilegiava, como fator potenciador da sua identidade, a mesma experiência de fé, o mesmo Deus.

A catequese de Israel vai, mais tarde, cristalizar esta consciência de que são um povo “à parte” no meio dos outros povos da terra, falando da eleição e da vocação de Israel… Se Israel existe – dizem os seus catequistas – é porque Deus o escolheu “para ser um Povo particular entre todos os povos que há sobre a face da terra” (Dt 7,6; cf. Is 41,8) e o chamou (cf. Is 48,12).

Essa escolha e esse chamamento não vieram do facto de Israel ser um povo forte, numeroso ou cheio de méritos (cf. Dt 7,7; 8,17; 9,4); mas foi o resultado de um amor sem explicação, que ultrapassa a simples lógica humana (cf. Dt 7,8; Os 11,1). Por isso, Deus distinguiu Israel no meio dos outros povos, libertou-o e salvou-o (cf. Dt 6,12; 7,8; 8,14; 9,26). De certo modo, Deus “criou” este Povo, formou-o como uma criança no seio da mãe (cf. Is 44,2.24). Assim, Israel passou a considerar-se o “Povo de Deus”, o Povo criado por Deus, o Povo que pertence a Deus e que caminha com Deus, o Povo que tem como missão testemunhar Deus diante de todos os outros povos.

Utilizando imagens fortes e sugestivas para definir esta realidade, os catequistas bíblicos vão dizer que Israel é o povo santo, consagrado a Jahwéh, posto “à parte” para Ele (Dt 7, 6; 14, 2), a sua herança (Dt 9, 26), o seu rebanho (Sal 80, 2; 94, 7), a sua vinha (Is 5, 1; Sal 80, 9), o seu filho (Ex 4, 22; Os 11, 1), a sua esposa (Os 2,4; Jer 2,2; Ez 16,8). Mais: Israel é definido como um povo de sacerdotes (Ex 19,6), no qual Deus reina sobre súbditos consagrados ao seu serviço.

A função deste “povo sacerdotal” é ser, no meio das outras nações, a testemunha do Deus único (cf. Is 44,8), o povo mediador pelo qual se reatará a comunhão entre Deus e o conjunto da humanidade, de modo que

se eleve a Deus o louvor da terra inteira (Is 45, 14s.23s) e todas as nações participem da bênção de Deus (Gen 12, 3; Jer 4, 2).

Israel aparece, assim, como uma comunidade (‘edah), uma assembleia (qahal) reunida à volta de Deus para lhe prestar culto. Em grego, dir-se-á que Israel é uma “synagogê” ou uma “ekklesia”, o que nos coloca no mesmo âmbito.

As respostas de Israel ao chamamento de Deus

As respostas de Israel ao chamamento de Deus

Contudo, apesar de se definir como o “Povo de Deus”, nem sempre Israel soube lidar bem com esta missão a que Deus o chamou. Depois de instalado na Terra Prometida, Israel terá a tendência de se acomodar e sentirá a tentação de imitar os outros povos que o rodeiam. Em certos momentos da sua história, Israel irá abandonar Jahwéh e as suas indicações e irá atrás de outras propostas de felicidade, pensando que, assim poderia construir um futuro “mais moderno” e mais livre. Esquecerá, então, a sua especificidade como “Povo de Deus”, chamado por Deus e consagrado a Deus.

Por outro lado, Israel não conseguirá ignorar a tentação de se construir à volta das estruturas temporais de uma nação particular e, em certos momentos da sua caminhada, irá insistir na sua condição de nação construída à volta de instituições concretas, de leis concretas e de uma história nacional. Acentuar-se-á uma perspetiva nacionalista, em detrimento da perspetiva universalista que é a sua vocação inicial. Ora, essa perspetiva nacionalista corria o risco de obrigar a proposta salvadora de Deus a ficar refém de um povo específico, o que contrariava o projeto de Deus… Seria, portanto, necessário que essa perspetiva fosse ultrapassada. Por isso, os profetas de Israel anunciaram o aparecimento, no futuro, de um novo Povo de Deus, um Povo perfeito e universal, cujo esboço e gérmen era o antigo Israel, mas que iria bem além das fronteiras físicas e nacionais de Israel. Seria, na perspetiva profética, um Povo que teria uma nova lei, inscrita nos corações e não em tábuas de pedra, exteriores ao homem (cf. Jer 31, 33; Ez 36, 27); seria um Povo universal, onde caberiam pessoas de todas as raças e culturas, sem qualquer exceção.

O novo Povo de Deus, anunciado pelos profetas, começa com Jesus Cristo. Ele, o Deus que veio ao mundo e que “construiu a sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14), tinha como objetivo apresentar-nos uma proposta de vida e de salvação destinada a todos os homens e mulheres, de todas as raças e culturas, sem qualquer exceção. Foi essa proposta que os seus discípulos levaram a toda a terra, ignorando as fronteiras e barreiras que dividiam os povos e as nações. A partir de então, o que é decisivo, não é a raça, nem a cultura, nem o ter nascido dentro de determinadas fronteiras físicas, mas o acolhimento da proposta de Jesus, do seu “evangelho”. O novo Povo de

Deus é constituído por todos aqueles que escutam a Palavra de Jesus e que aceitam o convite para O seguir nesse caminho de amor radical, de entrega total, de serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos.

Dessa “resposta” positiva à proposta que Deus apresenta em Jesus Cristo, nasce uma “comunidade de salvação”, uma “Igreja” (do grego “ekklesia”), uma família de irmãos e de irmãs que têm como missão ser sinal e anúncio da salvação de Deus no meio do mundo. Essa comunidade vive no tempo e peregrina na história; mas caminha para Deus e anuncia esse novo céu e essa nova terra que Deus quer oferecer a todos os seus filhos e filhas. É esse mesmo caminho que o catequista experimenta e propõe na catequese.

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