top of page

De onde vem o mal?

  • Cláudia Pereira
  • 3 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura
Caim matando Abel. 1550-1553. Jacopo Robusti Tintoretto
Caim matando Abel. 1550-1553. Jacopo Robusti Tintoretto

De onde vem o mal?

Se Deus não criou o mal, então, de onde vem o mal?

O problema do mal é, talvez, o maior mistério que se coloca à humanidade e o desafio mais sério que os seres humanos têm de enfrentar. Trata-se de uma realidade que todos os dias nos submerge e afoga, e que se traduz num imenso cortejo de misérias de toda a espécie, de tragédias colossais, de dores inumeráveis, de lágrimas sem fim… De onde vem esse “mal” que desfeia o mundo e que enche de sofrimento a vida dos homens e das mulheres? Deus não criou um mundo “bom” e bonito? O projeto de Deus não era que os seus filhos e filhas fossem felizes e encontrassem a Vida plena? Então, porque é que estamos “condenados” a conviver com o mal e a ver as nossas vidas e a nossa história indelevelmente marcadas por essa realidade?

Ao longo dos séculos estas questões nunca deixaram de inquietar os seres humanos… Trata-se de um problema que, continuamente, nos desafia e atrapalha e para o qual ninguém descobriu, ainda, respostas claras, inequívocas, universais, decisivas. Por mais engenhosas e coerentes que forem as respostas encontradas, o mal continuará, sempre, a ameaçar-nos, a desafiar-nos, a questionar-nos, a pintar com cores sombrias as nossas vidas… pelo menos enquanto caminharmos nesta terra e a nossa existência for marcada pela debilidade e finitude, que são os traços distintivos da nossa humanidade.


O mal para o povo de Israel

Como não podia deixar de ser, os catequistas de Israel também se debateram com o problema da existência do mal e, como nós, também procuraram respostas para esse incompreensível mistério… As respostas que eles deram a este problema humano estão marcadas pela sua fé e refletem a sua profunda experiência religiosa… São reflexões sábias, coerentes, com uma grande dose de verdade. Não explicam e não resolvem definitivamente o problema do mal; mas constituem uma ajuda indispensável para aprendermos a vencer o mal e para conseguirmos impedi-lo de tomar conta da nossa existência.

A primeira certeza definida pelos catequistas de Israel é que não foi Deus quem criou o mal… Deus criou um mundo onde tudo está bem (cf. Gen 1), um mundo harmonioso e belo, um mundo sem tensões nem conflitos, um mundo de comunhão e de concórdia entre todos os seres criados, um mundo onde os seres humanos teriam todas as condições para realizarem e concretizarem plenamente a sua vocação à felicidade. Mais: além de criar um mundo com todas as potencialidades para que os seres humanos pudessem gozar de uma felicidade sem fim, Deus quis indicar-nos a forma de nós construirmos as nossas vidas e a nossa história sem que o mal deteriorasse essa criação “boa” de Deus. Apontou-nos, desde os primeiros passos dos seres humanos sobre a terra, os caminhos que devíamos escolher para que pudéssemos encontrar a vida e a felicidade; avisou-nos que a escolha de caminhos de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência introduziriam na nossa história e na nossa vida desequilíbrios graves, capazes de alterar o projeto “bom” de Deus e de criar sofrimento e morte.

Apesar disso, os seres humanos – sempre na perspetiva dos nossos catequistas bíblicos – escolheram muitas vezes ignorar as indicações de Deus, julgando que dessa forma seriam mais livres e mais felizes. Deram ouvidos a outros “deuses”, deixaram-se seduzir por outras vozes que não estavam exatamente interessadas na nossa felicidade e na nossa realização, recusaram acolher as propostas que, com amor, Deus lhes apontava (cf. Gen 3,1-13). A essa recusa de Deus e das suas indicações, a esse buscar a felicidade por meios próprios, à margem de Deus ou mesmo contra Deus, chama-se “pecado”. E o pecado tem consequências dramáticas: não porque Deus “castigue” o homem por causa das suas escolhas erradas, mas porque o egoísmo e o orgulho humano geram situações de injustiça, de exploração, de violência responsáveis por muitos desequilíbrios, por muitas tensões, por muito sofrimento, por muitas lágrimas. O pecado – as escolhas egoístas do homem que recusa Deus e as suas propostas – acaba por deteriorar esse “paraíso” que Deus preparou para nós (cf. Gen 3, 14-24), acaba por criar conflitos entre os seres que partilham esta “casa” que todos habitamos, acaba por destruir a comunhão entre os seres humanos, acaba por trazer à vida dos homens e das mulheres dor, cansaço, desilusão, frustração, sofrimento e morte. Para os catequistas bíblicos, o “mal” (ou, pelos menos, parte do mal que desfeia o mundo) é o resultado de um mau exercício desse belo dom que Deus fez ao homem: a liberdade. Quando o homem escolhe ignorar Deus e as suas propostas, acaba, inevitavelmente, por se deixar dominar pelo orgulho, o ciúme, a inveja, e acaba por se tornar, para os seus irmãos, fonte de violência, de injustiça e de morte (história de Caim e Abel: Gen 4,1-16).


O caminho que escolhemos

Deus podia ter-nos impedido de fazer escolhas erradas, que podem conduzir a humanidade a uma espiral incontrolável de morte e de desgraça? Podia, se quisesse… Mas Deus preferiu respeitar a nossa liberdade, aceitar as nossas escolhas, e deixar-nos descobrir, através da nossa própria experiência, o sem-sentido de algumas das nossas opções. Esta pedagogia de Deus não é reflexo do seu alheamento da nossa vida e da nossa felicidade; mas reflete, de forma admirável, o seu amor incondicional, a sua bondade sem limites, o seu respeito pela dignidade e pela liberdade dos seus filhos e filhas…

Está assim resolvido, definitivamente, o mistério desse “mal” que assola o mundo e que transtorna a vida e a história dos seres humanos? Só em parte… Há, apesar de tudo, manifestações do “mal” que não são o resultado direto das escolhas erradas dos homens… Para esse “mal”, teríamos de procurar outras respostas. Contudo, as achegas dos catequistas bíblicos constituem uma importante contribuição para a compreensão do drama do “mal”. Porque é que, no que nos diz respeito, não evitamos as tais escolhas erradas que são responsáveis por tantas formas de dor e de sofrimento – para nós e para aqueles que caminham ao nosso lado? Porque, por vezes, o nosso orgulho, a nossa vaidade, a nossa autossuficiência falam mais alto, e convencemo-nos de que não precisamos de Deus nem das suas indicações… Ou porque a nossa fragilidade e debilidade não nos deixa fazer o bem que queremos, nem evitar o mal que não queremos (cf. Rom 7, 19). Estaremos, então, condenados a um futuro sem saída, tapado por um mal que irá aumentando até a história humana não ser mais viável? Não. O nosso Deus não desiste – nunca desistiu, ao longo da história da humanidade – de vir ao nosso encontro, de abraçar os filhos pródigos, de os acolher na sua casa e de lhes apontar caminhos novos de redenção, de graça e de esperança. Temos sorte: em cada instante, o nosso Deus dá-nos a oportunidade de começar tudo de novo e de construir uma história nova, uma história onde o mal não domine nem condicione as nossas vidas.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Subscreva a newsletter e receba no seu e-mail todas as novidades!

Obrigado pelo envio!

© 2025 por Manto de Maria

  • Spotify
bottom of page