Via-Sacra
O caminho da Salvação
A Via Sacra é uma das mais antigas formas de se meditar a Paixão de Cristo. A expressão vem do latim e significa “caminho sagrado”: literalmente falando, nada mais é que o trajeto percorrido por Nosso Senhor com a Cruz às costas, desde o pretório de Pilatos, onde foi condenado à morte, até o Calvário, onde foi crucificado.
As meditações que lhe propomos são da autoria de São John Henry Newman.

História
Segundo uma piedosa tradição, ninguém menos que a Virgem Maria teria dado início a este santo exercício: após a morte de seu divino Filho, seja sozinha, seja em companhia das santas mulheres, ela teria refeito constantemente a via crucis, isto é, o “caminho da Cruz”.
Seguindo o exemplo de Nossa Senhora, os fiéis da Palestina — e, no correr dos anos, numerosos peregrinos de todos os lugares do mundo — procuraram visitar aqueles santos lugares, cobertos pelo suor e pelo sangue de Jesus Cristo; e a Igreja, a fim de lhes encorajar a piedade, abriu a esses peregrinos seus tesouros de bênçãos espirituais.
Como, porém, nem todos podem ir à Terra Santa, a Santa Sé autorizou que fossem erigidas, nas igrejas e nas capelas de todo o mundo, cruzes, pinturas ou baixos-relevos representando as tocantes cenas que se passaram na estrada verdadeira ao Calvário, em Jerusalém.
Ao permitir a construção dessas “estações”, como são chamadas — e que tradicionalmente são em número de 14 —, os Pontífices Romanos, que compreendiam toda a excelência e eficácia desta devoção, se dignaram também enriquecê-las de todas as indulgências que advinham de uma visita de verdade à Terra Santa.
Ainda hoje, segundo o Manual das Indulgências, “concede-se indulgência plenária ao fiel que fizer o exercício da via-sacra, piedosamente”, levando-se em conta o seguinte (conc. 63):
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“O piedoso exercício deve-se realizar diante das estações da via-sacra, legitimamente eretas.
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Requerem-se catorze cruzes para erigir a via-sacra; junto com as cruzes, costuma-se colocar outras tantas imagens ou quadros que representam as estações de Jerusalém.
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Conforme o costume mais comum, o piedoso exercício consta de catorze leituras devotas, a que se acrescentam algumas orações vocais. Requer-se piedosa meditação só da Paixão e Morte do Senhor, sem ser necessária a consideração do mistério de cada estação.
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Exige-se o movimento de uma para a outra estação. Mas, se a via-sacra se faz publicamente e não se pode fazer o movimento de todos os presentes ordenadamente, basta que o dirigente se mova para cada uma das estações, enquanto os outros ficam em seus lugares.”
Essa indulgência pode, ainda, ser lucrada todos os dias do ano e aplicar-se aos defuntos como sufrágio.
Iniciar a Via-Sacra com o Ato de Contrição:
Meu Deus, porque sois infinitamente bom e Vos amo de todo o meu coração, pesa-me de Vos ter ofendido e, com o auxílio da Vossa divina graça, proponho firmemente emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Peço e espero o perdão das minhas culpas pela Vossa infinita misericórdia. Ámen.
Estações da Via-Sacra

Jesus é condenado à morte
Estação I
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Jesus, o mesmo que julgará o mundo no último dia, é condenado por juízes injustos a uma morte de ignomínia e tortura após deixar a casa de Caifás, ser arrastado diante de Pilatos e Herodes, ser zombado, espancado e cuspido e ter as costas feridas por chicotes e a cabeça coroada de espinhos. Jesus é condenado à morte. Sua sentença de morte está assinada, e quem assinou-a, senão eu, quando cometi meus primeiros pecados mortais? Meus primeiros pecados mortais, quando me afastei do estado de graça no qual Vós me colocastes por meio do Batismo: foram eles a vossa sentença de morte, Senhor. O inocente sofreu pelo culpado. Os meus pecados foram as vozes que clamaram: “Crucifica-o”. Aquela disposição e alegria de coração com as quais eu os cometi foram o consentimento que Pilatos deu a essa multidão clamorosa. E a dureza de coração decorrente deles, meu desgosto e desespero, minha orgulhosa impaciência, minha resolução obstinada de continuar pecando, o amor pelo pecado que se apoderou de mim — o que foram esses sentimentos contraditórios e impetuosos senão os golpes e as blasfêmias com os quais os ferozes soldados e a multidão vos receberam, cumprindo assim a sentença pronunciada por Pilatos?
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Jesus recebe a Cruz
Estação II
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Uma Cruz firme e pesada — pois é firme o suficiente para suportá-lo quando Ele chegar ao Calvário — é colocada sobre seus ombros dilacerados. Ele a recebe com delicadeza e humildade, e até com alegria no coração, pois ela será a salvação da humanidade. Isso é verdade, mas lembremo-nos de que essa pesada Cruz representa o peso dos nossos pecados. Ela causou impacto ao cair sobre o pescoço e os ombros dele. Ai de mim! Que peso inesperado e árduo eu coloquei sobre Vós, ó Jesus. E, mesmo estando plenamente preparado para isso — pois vedes todas as coisas por meio de vossa serena e clara presciência —, ainda assim o vosso débil corpo cambaleou sob o peso da Cruz quando ela desabou sobre vós. Ah! Que grande desgraça foi eu ter levantado a mão contra o meu Deus. Eu só poderia imaginar que Ele me perdoaria porque Ele mesmo nos disse que suportou sua amarga Paixão para que pudesse nos perdoar. Eu reconheço, ó Jesus, com o coração angustiado, que foram os meus pecados que vos feriram no rosto, que machucaram os vossos braços sagrados, que rasgaram a vossa carne com bastões de ferro, que vos pregaram na Cruz e vos fizeram morrer lentamente nela.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Jesus cai pela primeira vez sob a Cruz
Estação III
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Jesus, curvado sob o peso e o tamanho da pesada Cruz que arrastava, começa lentamente sua jornada, em meio aos insultos e zombarias da multidão. Sua agonia no jardim já foi suficiente para exauri-lo, mas foi apenas o primeiro de muitíssimos sofrimentos. Ele começa a caminhar com todo o seu coração, mas seus membros o traem, e Ele cai. Sim, é como eu temia. Por um momento, Jesus, o Senhor forte e poderoso, sentiu que os nossos pecados eram mais fortes do
que Ele. Ele caiu — mas suportou o fardo por um tempo; vacilou, mas perseverou e continuou a andar. Então, o que o teria feito cair? Eu digo e repito: é um alerta e uma lembrança para ti, ó minha alma, da tua recaída no pecado mortal. Eu me arrependi dos pecados da minha juventude e fiquei bem por um tempo, mas, depois de muito tempo, uma nova tentação surgiu quando eu estava desatento, e de repente eu caí. Então, todos os meus bons hábitos pareceram desaparecer de uma vez, semelhantes a uma veste que foi retirada, pois a graça se afastou de mim rápida e integralmente. E naquele momento olhei para o meu Senhor, e eis que Ele havia caído; então, cobri o rosto com as mãos e permaneci em um estado de grande confusão.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Jesus encontra sua Mãe
Estação IV
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Jesus se levanta, mesmo ferido pela queda. Continua a jornada com a Cruz ainda sobre os ombros. Ele está curvado, mas em certo ponto vê sua Mãe ao olhar para cima. Por um instante, veem um ao outro, e Ele segue adiante. Maria preferia ter padecido todos os sofrimentos dele, se fosse possível, ao invés de não saber quais eram por não ter estado perto dele. Ele também teve um momento de alívio, como se tivesse recebido uma reconfortante e agradável lufada de ar fresco, ao ver o triste sorriso dela em meio ao panorama e aos ruídos que o cercavam. Ela o conhecera belo e glorioso, com o frescor da Inocência divina e a paz em seu semblante; agora ela o via tão mudado e deformado, que mal conseguia reconhecê-lo, a não ser pelo olhar penetrante, comovente e apaziguador que lhe dirigia. De todo modo, Ele agora carregava o peso dos pecados do mundo, e, ainda que fosse plenamente santo, levava a imagem deles em seu próprio rosto. Parecia um pária ou um fora-da-lei que era culpado de algo terrível. Ele, que não tinha pecado, fizera-se pecado por nós. Fez-se pecado por nós aquele que não conhecia pecado algum, nem sinal ou traço algum dele, mas falava de culpa, de maldição, de castigo, de agonia. Oh, que encontro entre Filho e Mãe! E ainda assim eles se consolaram mutuamente, pois um tinha compaixão do outro. Jesus e Maria — [porventura] se esquecerão, na eternidade, desse tempo da Paixão?(1)
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.
(1) Passiontide, “Tempo da Paixão”, é como se chamavam, no antigo calendário litúrgico, as duas semanas finais da Quaresma — hoje correspondentes à 5.ª semana da Quaresma e à Semana Santa.

Simão de Cirene ajuda Jesus a carregar a Cruz
Estação V
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Depois de muito tempo, sua força falha completamente, e Ele é incapaz de prosseguir. Os carrascos ficam perplexos. O que devem fazer? Como Ele chegará ao Calvário? Logo eles veem um estranho que parece forte e ativo — Simão de Cirene. Agarram-no e obrigam-no a carregar a Cruz com Jesus. A visão do sofredor penetra o coração do homem. Oh, que privilégio! Ó alma feliz, eleita de Deus! Ele aceita com alegria a parte que lhe foi atribuída. Isso ocorreu pela intercessão de Maria. Ele não rezou por si mesmo, mas para que pudesse beber integralmente o cálice de sofrimento e fazer a vontade de seu Pai; mas ela mostrou sua maternidade ao acompanhá-lo com suas orações, uma vez que não podia ajudá-lo de outra forma. Então, enviou esse estranho para ajudá-lo. Foi ela quem levou os soldados a perceberem que poderiam estar sendo muito violentos com Ele. Doce Mãe, fazei o mesmo por nós. Rogai sempre por nós, ó Santa Mãe de Deus, rogai por nós, seja qual for a nossa cruz, enquanto seguimos nosso caminho. Rogai por nós, e nos ergueremos novamente, mesmo que tenhamos caído. Rogai por nós quando a tristeza, a ansiedade ou a doença nos atingir. Rogai por nós quando estivermos prostrados sob o poder da tentação e enviai algum fiel servo vosso para nos socorrer. E no mundo que há de vir, se formos considerados dignos de expiar os nossos pecados na prisão ardente, enviai algum bom anjo para nos proporcionar um período de alívio. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Verónica enxuga o rosto de Jesus
Estação VI
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Enquanto Jesus sobe a colina, coberto pelo suor da morte, uma mulher abre caminho por entre a multidão e enxuga o rosto dele com um lenço. Em recompensa por sua piedade, o pano retém a impressão da Sagrada Face. A ternura maternal de Nossa Senhora foi além do alívio proporcionado a Ele. As orações de Maria enviaram Verónica, assim como Simão — Simão para fazer o trabalho de um homem, Verônica para desempenhar o papel de uma mulher. A devota serva de Jesus fez o que pôde. Assim como Madalena derramou o unguento na festa, Verónica agora lhe ofereceu esse lenço em sua Paixão. “Ah”, disse ela. “Quisera eu poder fazer mais! Por que não tenho a força de Simão para participar do fardo da Cruz? Mas somente os homens podem servir o grande Sumo Sacerdote, agora que Ele celebra o solene ato de sacrifício.” Ó Jesus! Permiti que todos nós possamos vos servir segundo os nossos deveres e capacidades. E assim como aceitastes dos vossos seguidores o alívio na vossa hora de provação, concedei-nos o apoio da vossa graça quando formos duramente ameaçados pelo nosso Inimigo. Sinto que não consigo resistir às tentações, ao cansaço, ao desânimo e ao pecado. Digo a mim mesmo: que vantagem há em ser religioso? Eu cairei, ó meu querido Salvador, certamente cairei, a menos que renoveis minha força como a da águia e me deis vida, por meio da consoladora administração dos santos sacramentos que estabelecestes e do efeito que eles produzem.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Jesus cai pela segunda vez
Estação VII
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
A dor de suas feridas e a perda de sangue aumentam a cada passo de seu caminho; novamente seus membros falham e Ele cai no chão. Ora, o que Ele fez para merecer tudo isso? Essa é a recompensa recebida pelo Messias tão esperado do povo escolhido, os filhos de Israel. Eu sei o que responder. Ele cai porque eu caí. Eu caí novamente. Sei bem que, sem a vossa graça, Senhor, eu não seria capaz de permanecer de pé, e pensei que me manteria fiel aos vossos sacramentos, mas, apesar de ir à Missa e de cumprir meus deveres, estou outra vez afastado da graça. E por qual motivo? Porque perdi o espírito de devoção e me aproximei dos vossos sagrados mistérios com frieza e formalidade, sem a devida disposição interna. Tornei-me morno, tíbio. Pensei que a batalha da vida havia terminado e me senti seguro. Não tive uma fé fervorosa, não enxerguei as coisas espirituais. Fui à igreja por hábito e porque achava que os outros me observavam. Eu deveria ser uma nova criatura, viver pela fé, pela esperança e pela caridade, mas pensei mais neste mundo que no mundo vindouro — e, por fim, esqueci que era servo de Deus e segui o caminho largo que leva à perdição, não o caminho estreito que conduz à vida. E assim me afastei de Vós.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

As mulheres de Jerusalém choram por Nosso Senhor
Estação VIII
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Ao verem os sofrimentos de Jesus, as santas mulheres ficam de tal modo trespassadas de dor, que gritam e lamentam por Ele, sem se importarem com o que lhes possa acontecer. Jesus, voltando- se para elas, diz: “Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos.” Ah! Ó Senhor, serei eu uma daquelas crianças pecadoras por quem ordenais que suas mães chorem? “Não choreis sobre mim”, Ele disse, “pois eu sou o Cordeiro de Deus e faço a expiação dos pecados do mundo por minha própria vontade. Agora sofro, mas triunfarei; e, quando triunfar, aquelas almas, pelas quais estou morrendo, serão ou minhas amigas mais queridas ou minhas inimigas mais mortais.” Será possível? Ó meu Senhor, será que consigo conceber o terrível pensamento de que realmente chorastes por mim assim como chorastes por Jerusalém? É possível que eu seja um dos réprobos? É possível que vossa Paixão e Morte me levem à derrota ao invés de me beneficiarem? Oh, não vos afasteis de mim. Minha situação é muito ruim. Há tanto mal em mim! Não tenho um espírito corajoso e sincero para se opor a esse mal. Ó Senhor, o que será de mim? É tão difícil afastar o espírito maligno do meu coração. Só Vós podeis expulsá-lo eficazmente.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Jesus cai pela terceira vez
Estação IX
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Jesus havia quase alcançado o cume do Calvário, mas, antes de chegar ao local exato onde seria crucificado, cai novamente, é puxado para cima e empurrado pelos brutais soldados. A Sagrada Escritura narra três quedas de Satanás, o espírito maligno. A primeira ocorreu no princípio; a segunda, quando o Evangelho e o Reino dos Céus foram pregados ao mundo; a terceira ocorrerá no final de todas as coisas. A primeira queda nos é relatada por São João Evangelista. Ele diz: “Houve no Céu uma batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o Dragão, e o Dragão com os seus anjos pelejava contra ele; porém estes não prevaleceram, nem o seu lugar se encontrou mais no Céu. E foi precipitado o grande Dragão, a antiga Serpente, que se chama Demónio e Satanás” (Ap 12, 7-9). A segunda queda ocorre na época do Evangelho, e é mencionada por Nosso Senhor quando diz: “Eu vi Satanás cair do Céu como um raio” (Lc 10, 18). E a terceira queda é narrada pelo mesmo São João: “Mas desceu do Céu um fogo que os devorou. E o demônio, que os seduzia, foi metido no tanque de fogo e de enxofre” (Ap 20, 9b-10). O espírito maligno tinha em mente essas três quedas — a passada, a presente e a futura — quando persuadiu Judas a trair nosso Senhor. Era essa a hora dele. Nosso Senhor, quando foi preso, disse aos seus inimigos: “Esta é a vossa hora, e o poder das trevas” (Lc 22, 53). Satanás sabia que seu tempo era curto, e pensou que poderia usá-lo de maneira eficaz. Mas, sem imaginar que estaria favorecendo a redenção do mundo — que a Paixão e Morte de nosso Senhor deveriam realizar —, por vingança e, como ele pensava, triunfalmente, golpeou-o uma, duas, três vezes, cada vez com um golpe mais forte. O peso da Cruz, a barbárie dos soldados e da multidão não foram senão seus instrumentos. Ó Jesus, Filho Unigênito de Deus, Verbo Encarnado, nós vos louvamos, adoramos e amamos por vossa inefável condescendência, até em vos deixardes cair assim, por algum tempo, nas mãos e sob o poder do Inimigo de Deus e dos homens, para assim impedir que nos tornemos servos e companheiros dele por toda a eternidade.
Ou isto:
Esta é a pior das três quedas. As forças de Jesus falham completamente durante algum tempo, e os soldados bárbaros demoram um pouco até conseguirem levá-lo. Ah! Ele antecipava o que aconteceria comigo. Minha situação está se deteriorando cada vez mais. Ele vê o fim desde o princípio. Estava pensando em mim o tempo todo enquanto se arrastava pelo Monte Calvário. Viu que eu cairia novamente, apesar de todos os alertas e auxílios anteriores. Viu que eu me sentiria seguro e autoconfiante, e que meu inimigo então me atacaria com alguma nova tentação, à qual eu jamais pensara que estaria exposto. Eu imaginava que minha fraqueza estava toda de um lado específico que eu conhecia. Não tinha ideia de que não era forte do outro lado. E assim Satanás me atingiu pelo meu lado desprotegido e me venceu devido à minha autoconfiança e autossatisfação. Faltava-me humildade. Pensei que mal nenhum me aconteceria, pensei que tinha superado o perigo de pecar; imaginei que era fácil chegar ao Céu, e por isso não estava vigilante. Meu orgulho me levou a cair uma terceira vez.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Jesus é despojado das suas vestes
Estação X
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Por fim, Ele chegou ao local do sacrifício e começaram a prepará-lo para a Cruz. As vestes lhe foram arrancadas do corpo sangrento, e Ele, o Santo dos Santos, ficou exposto ao olhar da multidão vulgar e escarnecedora. Vós, que em vossa Paixão fostes despojado de todas as vestes e exposto à curiosidade e à zombaria da escória, fazei com que eu me despoje de mim mesmo aqui e agora, para que no último dia não me envergonhe diante dos homens e dos anjos. Suportastes a humilhação do Calvário para que eu pudesse ser poupado da vergonha no juízo. Não tínheis nada de que vos envergonhar pessoalmente, e a vergonha que sentistes foi por terdes assumido a natureza humana. Quando vos tiraram as vestes, vossos membros inocentes eram apenas objeto de humilde e amorosa adoração para os mais altos serafins. Ficaram em torno de Vós, sem palavras, admirados com a vossa beleza, e tremeram perante a vossa infinita humilhação. Mas eu, Senhor, como parecerei, se, despojado do manto de graça que vos pertence, Vós me levantardes para que eu seja contemplado, e a minha vida pessoal e a minha natureza sejam observadas? Oh, como sou repugnante por dentro, mesmo em meu melhor estado. Mesmo quando estou purificado dos meus pecados mortais, que doença e corrupção se veem até em meus pecados veniais! Como poderei estar apto para a companhia dos anjos, como poderei entrar na vossa presença, enquanto não queimardes esta lepra imunda no fogo do Purgatório?
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Jesus é pregado na Cruz
Estação XI
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
A Cruz é deitada no chão, Jesus é estendido sobre ela e, depois de muito esforço, ela é empurrada para o buraco preparado para recebê-la. Ou, como outros pensam, é elevada verticalmente, e Jesus é levantado e amarrado nela. À medida que os executores brutais martelam os grandes pregos, Ele se oferece ao Pai eterno como resgate pelo mundo. Os golpes são desferidos — o sangue jorra. Sim, ergueram a Cruz ao alto, colocaram-lhe uma escada e, despojando-o de suas vestes, fizeram-no subir. Enquanto suas mãos agarravam debilmente os lados e as traves, e com muito esforço seus pés subiam lenta e hesitantemente em meio a muitas escorregadelas, os soldados apoiavam-no de cada lado; caso contrário, Ele teria caído. Quando chegou à saliência onde deveriam ficar seus sagrados pés, voltou-se com doce modéstia e delicadeza para a turba feroz, estendendo os braços, como se quisesse abraçá-la. Depois, colocou amorosamente as costas das mãos junto à viga transversal, à espera que os carrascos viessem com os seus pregos afiados e martelos pesados para cravarem as palmas de suas mãos e as prenderem firmemente à madeira. Ali ficou suspenso, uma perplexidade para a multidão, um terror para os espíritos malignos; o espanto, a admiração, mas também a alegria, a adoração dos santos anjos.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Jesus morre na Cruz
Estação XII
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Jesus ficou pendurado por três horas. Durante esse tempo, rezou por seus assassinos, prometeu o Reino dos Céus ao ladrão penitente e entregou sua Bem-aventurada Mãe à guarda de São João. Então, tudo se consumou, e Ele inclinou a cabeça e entregou seu espírito. O pior já passou. O Santo dos Santos está morto e partiu. O mais terno, o mais afetuoso, o mais santo dos filhos dos homens se foi. Jesus está morto, e com a morte dele meu pecado morrerá. Eu declaro de uma vez por todas, diante dos homens e dos anjos, que o pecado não terá mais poder sobre mim. Nesta Quaresma, entrego-me a Deus para sempre. A salvação da minha alma será minha principal preocupação. Com a ajuda de sua graça, criarei em mim um profundo ódio e tristeza por meus pecados passados. Farei o máximo para detestar o pecado tanto quanto já o amei. Entrego-me nas mãos de Deus, não pela metade, mas sem reservas. Prometo a Vós, Senhor, com a ajuda da vossa graça, evitar o caminho da tentação, evitar todas as ocasiões de pecado, afastar-me imediatamente da voz do Maligno, ser constante em minhas orações, a fim de que eu morra para o pecado e a vossa morte na Cruz não tenha sido em vão [para mim].
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Jesus é colocado nos braços de sua Mãe Santíssima
Estação XIII
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
A multidão foi para casa. O Calvário ficou solitário e silencioso, exceto pela presença de São João e das santas mulheres. Então, José de Arimateia e Nicodemos chegam e retiram o corpo de Jesus e o colocam nos braços de Maria. Ó Maria, finalmente tomastes posse do vosso Filho. Agora, quando os inimigos dele não podem fazer mais nada, deixam-no em desprezo por vós. Enquanto os inesperados amigos dele realizam seu árduo trabalho, observais tudo com pensamentos inefáveis. Vosso coração é trespassado pela espada da qual falou Simeão. Ó Mãe dolorosíssima! Mas na vossa tristeza há uma alegria ainda maior. A alegria da espera vos encorajou a permanecer ao lado dele quando estava pendurado na Cruz; agora, mais ainda, sem desmaiar, sem tremer, vós o recebeis em vossos braços e em vosso colo. Agora sois supremamente feliz por tê-lo, embora Ele não volte para vós da mesma maneira como partiu. Ele saiu da vossa casa, ó Mãe de Deus, com a força e a beleza de sua masculinidade, e volta para vós deslocado, despedaçado, mutilado, morto. No entanto, ó Maria Santíssima, sois mais feliz nesta hora de aflição do que no dia das bodas [de Caná], porque naquele momento Ele estava prestes a vos deixar, e agora, no futuro, como Salvador Ressuscitado, Ele não mais se separará de vós.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.

Jesus é colocado no sepulcro
Estação XIV
℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Mas, durante um curto período de três dias (mais precisamente, um dia e meio), Maria deve então renunciar a Ele, já que ainda não ressuscitou. Os amigos e servos dele tiram-no de vós e o colocam em um sepulcro digno. Fecham-no com segurança, até chegar a hora da ressurreição. Deitai e dormi em paz na calma sepultura por um pouco de tempo, amado Senhor, e depois despertai para um reinado eterno. Nós, como as mulheres fiéis, faremos vigília ao redor de Vós, pois nosso tesouro e nossa vida estão inteiramente depositados em Vós. E, quando chegar a nossa vez de morrer, concedei-nos, Senhor, que possamos também dormir tranquilamente o sono dos justos. Que possamos dormir em paz durante o breve intervalo entre a morte e a ressurreição dos mortos. Protegei-nos do Inimigo, salvai-nos do Inferno. Que os nossos amigos se lembrem de nós e rezem por nós, ó amado Senhor. Que se rezem Missas por nós, para que as dores do Purgatório, tão merecidas por nós e, por isso mesmo, tão bem acolhidas por nós, acabem com pouca demora. Dai-nos, enquanto lá estivermos, momentos de alívio; envolvei-nos com sonhos benditos e contemplações reconfortantes, enquanto ganhamos forças para subir aos Céus. E que os nossos fiéis anjos da guarda nos ajudem a subir a gloriosa escada, que vai da terra ao Céu e da qual Jacó teve uma visão. E quando chegarmos às portas eternas, que elas se abram diante nós com a música dos anjos; e que São Pedro nos receba, e que Nossa Senhora, a gloriosa Rainha dos Santos, nos abrace e nos leve a Vós, ao vosso Pai Eterno e ao vosso Espírito coigual, três Pessoas, um só Deus, para reinarmos convosco para todo o sempre.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
℣. Senhor, pequei.
℟. Tende piedade e misericórdia de mim.
Oremos;
Deus, que pelo precioso Sangue do vosso Filho Unigênito santificastes o estandarte da Cruz, concedei-nos, vos pedimos, que nós, que nos alegramos na glória da mesma Santa Cruz, nos regozijemos em todo o tempo e lugar com a vossa proteção, pelo mesmo Cristo, Senhor nosso.
Terminar com um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória ao Pai, pelas intenções do Sumo Pontífice.
