Abraão, o pai do Povo de Deus.
- Cláudia Pereira
- 5 de dez. de 2025
- 8 min de leitura
Quem foi Abraão?
A Bíblia faz começar a história do Povo de Deus com um homem chamado Abraão. Trata-se de uma das figuras mais importantes das chamadas "tradições patriarcais" (Gen 12-36).

Abraão, o pai do Povo de Deus.
No início do segundo milénio a.C., a história universal regista um forte movimento migratório entre a Mesopotâmia e o Egito, passando pela terra de Canaan. São povos deslocados das suas terras pela invasão amorrita (final do terceiro milénio a.C.) e grupos nómadas amorreus que não conseguiram, após a invasão, fixar-se no sul da Mesopotâmia e procuraram noutras paragens um espaço disponível para se instalarem e sedentarizarem.
Ora, o nome Abraão é um nome amorreu (o mesmo se passa, aliás, com os nomes de outros patriarcas bíblicos, como Isaac ou Jacob). Segundo o Livro do Génesis, ele seria originário da cidade de Ur, uma cidade do sul da Mesopotámia (no atual Iraque), e teria passado por Haran (norte da Mesopotâmia) antes de se internar na terra de Canaan (cf. Gen 11, 31-32). Este percurso situa-nos, perfeitamente, no cenário e no enquadramento desse movimento migratório que a terra de Canaan conheceu no início do segundo milénio a.C.
Podemos aceitar que os patriarcas bíblicos nomeadamente Abraão são, com toda a probabilidade, pastores nómadas amorreus de gado miúdo que vieram do sul da Mesopotamia no início do segundo milénio a.C. e que entraram pacificamente na Palestina em meados do séc. XIX a.C.
Como seria a religião destes pastores nómadas, o meio religioso de Abraão?
Como é que eles se relacionavam com o mundo de Deus?
Do pouco que conhecemos sobre o universo religioso destes grupos, podemos dizer que os seus deuses estavam ligados a nomes de homens, mais precisamente ao nome do patriarca do grupo. Fala-se, assim, no deus de Abraão e no deus de Isaac (ou no "Parente de Isaac" - Gen 31, 42), no deus de Jacob (ou no "Poderoso de Jacob" - Gen 49, 24), no deus de Israel (ou na "Rocha" e "Pastor de Israel" Gen 49, 24). Segundo parece, o "deus" de cada um desses grupos nómadas era o deus dos seus antepassados, o "deus do pai"; tratava-se, sempre, de um deus nómada, peregrino, que acompanhava a tribo nas suas deslocações e a protegia dos conflitos, que lhe dava pastagens e água para os rebanhos, que concedia à tribo vida, bênção e descendência. No entanto, quando se estabeleciam num determinado lugar, estes grupos nómadas tomavam contacto com uma realidade religiosa diferente...

Em geral, os deuses dos povos sedentários estavam ligados a santuários fixos, situados em "lugares altos" (montanhas...). Aí, nesses locais sagrados marcados por um "monumento" (um santuário, um altar, uma pedra, uma árvore), adorava- se uma divindade local (em Canaã, quase sempre o deus EI, o deus mais importante do panteão dos cananeus); aí contava-se a "lenda cultual" daquele lugar: uma história qualquer que mostrava como o deus aí adorado, em tempos muito antigos, tinha aparecido ao patriarca do grupo aí instalado e lhe tinha feito promessas de vida e de salvação...
Quando chegavam a um local e aí se instalavam, os clãs nómadas como o de Abraão - conheciam esses locais sagrados e tinham tendência em assimilar o seu deus pessoal o deus do seu antepassado, o deus nómada que o tinha acompanhado pelos caminhos - ao deus adorado naquele local.
Com o passar do tempo, cada clã foi identificando o "deus do pai" com "EI" (o tal deus principal do panteão cananeu, adorado em quase todos os lugares sagrados da Palestina de então). Assim, "EI", adorado nesse lugar com determinado nome, tornou-se o deus de cada um dos clãs dos patriarcas.
Mais: quando os patriarcas bíblicos se tornaram os novos "donos" daquele lugar, as lendas cultuais dos santuários passaram a ser relacionadas com o seu nome... Assim, já não se dizia que o deus El tinha aparecido naquele lugar a um cananeu qualquer, mas passou a dizer-se que El apareceu e falou a Abraão (ou a Isaac, ou a Jacob) naquele lugar. As "tradições patriarcais" do Livro do Génesis fazem eco desta realidade e deixam entrever, nas entrelinhas, este enquadramento.
De resto, a vida do nómada Abraão foi uma vida muito parecida com a dos outros nómadas que circulavam na zona do Crescente Fértil, no início do segundo milénio a.C.:
Deambulações contínuas de uma terra para outra, ao sabor das necessidades de água e de comida para as pessoas e para os rebanhos (cf. Gen 12, 1-9);
Conflitos com os povos sedentários que ocupavam as terras atravessadas; altercações com grupos locais ou com outros pastores nómadas por causa dos poços de água ou das pastagens (cf. Gen 21, 22-34);
Problemas com os pequenos senhores locais, mais ou menos poderosos, que viam nestes nómadas sem defesa uma presa fácil, e que procuravam apropriar-se dos seus rebanhos ou até das pessoas mais "apetecíveis" da tribo (cf. Gen 12, 10-20; 20, 1-18);
Alianças com alguns senhores locais para defesa de interesses comuns (cf. Gen 14, 1-16); sonho, muitas vezes adiado e nem sempre concretizado, de encontrar uma terra onde se estabelecer, escapando assim aos perigos e incomodidades da vida nómada (cf. Gen 15,7-21);
Desejo de uma numerosa descendência que assegurasse a força daquela tribo e o futuro daquela família (cf. Gen 17, 1-27; 18, 9-15).
Podemos dizer que Abraão, assim como os outros patriarcas bíblicos - foram homens do seu tempo. Nada de especial os distinguia de outros homens e mulheres que se moviam no mesmo cenário geográfico, social e político... Em relação aos homens do seu tempo, eles não tinham uma religião diferente ou uma forma diferente de encarar o mundo de Deus. Não eram melhores, nem piores, do que os outros homens... Eram homens como todos os outros, que peregrinavam pela vida e que, nessa peregrinação, iam descobrindo, aos poucos e com muita dificuldade, esse Deus único que se revela aos homens e que tem um projeto de Vida e de felicidade para a humanidade inteira.
Abraão, Homem de Fé, Pai dos Crentes
Os textos bíblicos falam-nos de Abraão, - da sua fé, da sua confiança, da sua obediência incondicional a Deus com grande elevação e devoção, como se Abraão tivesse sido, desde sempre, um modelo excecional de crente. Porquê? Como explicar isso, se Abraão foi um "apenas" um homem do seu tempo, um homem à procura de Deus, sim, mas com os limites, as debilidades e as particularidades de um homem do séc. XIX a.C.?
As histórias do Livro do Génesis sobre os patriarcas, foram escritas muitos séculos depois de Abraão, por "catequistas" que não estavam muito preocupados em traçar o retrato histórico de Abraão, mas que estavam vivamente interessados em dizer aos seus leitores e catequizandos, como devia ser o "crente ideal", o crente por excelência, o crente verdadeiro. Pegaram, naturalmente, em algumas histórias antigas que falavam sobre Abraão e contaram-nas com uma finalidade catequética...
O nómada Abraão, que emigrou do sul da Mesopotâmia para a terra de Canaã para tentar encontrar um pedaço de terra onde se fixar, escapando assim aos perigos e incomodidades da vida nómada (cf. Gen 12, 1-9), passou a ser, para os catequistas de Israel:
O homem a quem Deus chamou, a quem Deus mandou sair da sua terra e ir para uma terra estrangeira,
Que obedeceu sem hesitar a todas as estranhas e incompreensíveis ordens de Deus (porque o crente verdadeiro é aquele que escuta as indicações de Deus e lhe obedece sem discutir ou sem duvidar);
O nómada que acolhe na sua tenda os viajantes que passam e lhes dá hospitalidade (cf. Gen 18, 1-15) passou a ser, para os catequistas de Israel, o homem que acolhe Deus na sua casa e que, por isso, é magnificamente recompensado pela divindade; o nómada que se estabeleceu num lugar sagrado onde se contava uma lenda sobre o misterioso salvamento de uma criança destinada a ser sacrificada aos deuses (cf. Gen 22, 1-19), passou a ser, para os catequistas de Israel, o crente de fé inquebrantável que, submetido por Deus a uma prova duríssima (oferecer o seu filho único em sacrifício), não hesita em escutar as ordens de Deus e em sacrificar os seus sonhos pessoais e até os sonhos da sua família aos insondáveis projetos de Deus.
Interessa-nos o Abraão histórico, o nómada que deambula pelas franjas das terras ocupadas pelos povos sedentários à procura de melhores condições de vida, arrastando consigo o deus dos seus antepassados, esse deus peregrino que o protege e que lhe garante a realização dos seus sonhos humanos?
Para nós, crentes, o Abraão que nos interessa aquele que nos provoca, que nos interpela, que nos questiona, que nos desafia, que é um modelo para cada crente - é o Abraão que nos é apresentado pela catequese de Israel... Interessa-nos esse Abraão que é o "pai dos crentes", quer dizer, o primeiro, o modelo, o paradigma do homem que procura Deus, que o encontra, que o escuta, que adere às suas propostas e que o ama...

A catequese de Israel propõe-nos esse Abraão que nos ensina a estar sempre disponível para acolher o Deus que vem ao nosso encontro, que nos pede atitudes, que nos indica os caminhos a percorrer, que nos convida a romper com um passado velho e estéril para nos aventurarmos à conquista da novidade fecunda de Deus... É assim que deve ser o verdadeiro crente.
A catequese de Israel apresenta-nos o Abraão que nos ensina a recusar a instalação, o comodismo, o conformismo, e que nos desafia a ir pelas estradas do mundo para aí encontrar os caminhos e os projetos de Deus... É assim que se define o verdadeiro crente.
A catequese de Israel propõe-nos o Abraão que nos mostra a importância de viver em diálogo com Deus, de aceitar a comunhão com Deus, de viver "em aliança" com Deus, de eleger Deus como a prioridade da nossa vida e das nossas opções... É dessa forma que o verdadeiro crente se situa diante de Deus.
A catequese de Israel interessa-se pelo Abraão que nos ensina a ter um coração magnânimo, a respeitar a liberdade e a dignidade dos outros, a buscar a justiça, a preferir a verdade, a sinceridade, a lealdade... É assim que o verdadeiro crente se situa face aos outros homens e mulheres com quem se cruza nos caminhos da vida.
A catequese de Israel oferece-nos um Abraão que nos ensina a acolher esses irmãos que passam à nossa porta cansados e esfomeados, e nos ensina a partilhar tudo o que temos com os homens e mulheres que connosco se cruzam nos caminhos da vida... É esse o comportamento que Deus espera de um verdadeiro crente.
A catequese de Israel propõe-nos o Abraão que nos convida a colocar em segundo lugar os nossos projetos e sonhos pessoais e a dar uma prioridade absoluta aos projetos e aos sonhos de Deus... É essa a atitude que define o verdadeiro crente.
A catequese de Israel desafia-nos a ter como modelo de vida esse Abraão que, nos convida a confiar plenamente em Deus, a não resistir às indicações de Deus, a obedecer radical e incondicionalmente aos apelos e propostas de Deus. O verdadeiro crente é aquele que, como Abraão, possui uma fé inquebrantável, é capaz de uma obediência incondicional a Deus e que, com total confiança, ousa saltar às escuras para os braços de Deus.
A imagem de Abraão que a catequese de Israel traça é uma imagem muito bela, muito interpelante, que nos desafia continuamente a ir mais além na adesão a Deus e às suas propostas. Neste quadro, Abraão é, verdadeiramente, o "patriarca", o primeiro, o modelo, o paradigma do homem e da mulher que querem integrar o Povo de Deus, que querem viver na escuta e no acolhimento das propostas de Deus. Quem quer fazer verdadeiramente parte do Povo de Deus, tem de ter continuamente diante dos olhos o exemplo de Abraão. Este é, também, um grande e profundo modelo para os catequistas, que assumem, no seu serviço às crianças, uma atitude sãmente paternal/maternal.
Subscreva a nossa newsletter, para receber no seu e-mail os próximos artigos!
Comente - Partilhe - Faça parte do Manto de Maria
Que Deus vos proteja e abençoe por toda a eternidade.




Comentários