Deus criou para nós um mundo bom e bonito.
- Cláudia Pereira
- 30 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
Qual a origem do Universo?
De que mãos saiu esse cosmos impressionante, cujos espaços e fronteiras ainda não conseguimos vislumbrar completamente? Quem pintou o céu com as suas cores deslumbrantes e distribuiu pela terra os oceanos? Quem criou essa ordem admirável que podemos perceber na criação? Quem modelou, com cuidados de artista, esta terra tão bela onde a humanidade caminha e cumpre a sua história?
Desde os tempos mais recuados, homens e mulheres de todas as culturas – egípcia, suméria, assíria, babilónica – ligaram a origem do universo e da vida a Deus. Recorrendo à linguagem dos “mitos” (uma linguagem extremamente sugestiva para falar de realidades que ultrapassam a simples lógica humana), todos disseram – de forma mais clara ou mais velada, mais erudita ou mais vulgar – a sua convicção profunda de que Deus era o responsável pela criação do universo e da vida.
O Povo bíblico também chegou à mesma conclusão. Os “catequistas” de Israel, em épocas diferentes e até em lugares diferentes, desenvolveram reflexões muito belas onde expressaram a sua fé no Deus criador do universo, do mundo e da vida. Por vezes, tomaram imagens e expressões retirados dos “mitos” de origem de outros povos – por exemplo, de certos poemas mesopotâmios ou babilónicos que descreviam, utilizando a linguagem mitológica própria da época, a intervenção dos deuses no processo da criação; mas souberam adaptar essas imagens e expressões para que elas explicitassem a própria fé de Israel num Deus único, criador e salvador, que fez este mundo bom e bonito por amor e que o ofereceu aos seres humanos para que eles pudessem realizar-se e ser felizes.

No primeiro livro da Bíblia – o Génesis – temos duas catequeses sobre a criação. A mais antiga apareceu, muito provavelmente, no séc. X a.C., e é conhecida como o “relato jahwista sobre as origens”. Podemos encontrar esse texto em Gn 2,4b-25.
Este relato apresenta-se num estilo exuberante, colorido, pitoresco e é, muito provavelmente, obra de um catequista popular que ensina recorrendo a imagens muito sugestivas e fortes. Fundamentalmente, ensina que Deus criou um mundo bom e bonito para o oferecer ao homem a fim de que o homem pudesse ser feliz. O homem e a mulher são iguais, feitos da mesma “carne”. Eles são o centro de toda a criação e é à volta deles que tudo se articula e ordena – as árvores “agradáveis à vista e de saborosos frutos para comer”, os rios que asseguram a vida e a fertilidade, “os animais dos campos e todas as aves do céu”.
A outra catequese (cf. Gn 1,1-2,4a) é bem mais recente. É conhecida como “relato sacerdotal das origens”. Composta, muito provavelmente, na Babilónia, quando os habitantes de Judá estiveram exilados nessa terra estrangeira e lidavam, todos os dias, com as liturgias babilónicas que celebravam e exaltavam a ação dos deuses locais no processo criador, pretende afirmar a fé de Israel, contrapondo aos mitos de origem dos babilónios a fé num Deus único, autor do mundo e da vida. Recorrendo à linguagem poética, os “catequistas da “escola sacerdotal” ensinam que foi Deus quem fez aparecer o céu, a lua, as estrelas, os mares, a terra firme, as plantas, os animais e, por fim, o homem e a mulher, como corolário de toda a criação. Toda a criação de Deus é “muito boa”: além de bela e útil, nela não existiam tensões nem conflitos a quebrar a harmonia do plano de Deus. A criação foi confiada por Deus à responsabilidade do homem e da mulher para que eles pudessem, pelo tempo fora, continuar o processo criador, como “cúmplices” de Deus na obra criadora. É claro que este poema não é um tratado científico ou uma reportagem jornalística sobre a forma como o mundo apareceu; mas é um magnífico hino onde um crente de há muitos séculos, recorrendo à linguagem da época e a expressões literárias próprias da sua cultura, plasma o seu louvor a esse Deus que, de acordo com a catequese de Israel, está na origem do universo, do mundo e da vida. Provavelmente, era um hino usado nas liturgias em que, no sétimo dia da semana – o sábado –, os crentes israelitas reunidos em assembleia louvavam o Deus criador.

Do amor, Deus criou um mundo bom e bonito, dado a todos nós.
A criação do universo e deste mundo magnífico, que é a casa de todos os seres humanos, é o primeiro passo de Deus na concretização desse projeto de salvação que Ele tem para nós. A incrível beleza das coisas criadas, a espantosa harmonia das leis que regem o cosmos, as infinitas possibilidades que este mundo tão bonito nos oferece, falam-nos do imenso amor de Deus por todos os seres humanos – a quem toda a criação foi confiada – e da sua aposta incondicional em proporcionar-nos uma vida feliz e plenamente realizada. É impossível contemplar a criação “com olhos de ver” sem nos sentirmos submersos pela grandeza do amor de Deus, que preparou para nós coisas tão belas e as colocou gratuitamente nas nossas mãos. É impossível contemplar a criação sem que da nossa boca brote, espontaneamente, o louvor a esse Deus que nos preparou uma casa tão aprazível. A grandeza, a beleza e a magnificência do universo criado constituem, sem dúvida, a primeira indicação da preocupação de Deus em proporcionar aos seus filhos e filhas uma vida feliz, uma vida cheia e plena.
É claro que esta constatação nos coloca diante de algumas responsabilidades:
A primeira é, talvez, a de respondermos com a gratidão e o louvor a essa iniciativa do Deus criador. A iniciativa de Deus é fruto do Seu imenso amor pelos Seus filhos e filhas e tem de encontrar no coração de cada homem e de cada mulher uma resposta de louvor e de ação de graças que seja expressão do nosso reconhecimento.
A segunda responsabilidade é a de cuidarmos bem dessa “casa” que Deus construiu e nos ofereceu. Tudo o que signifique explorar egoisticamente os recursos que Deus ofereceu a todos, é um crime contra a criação; a busca desenfreada das riquezas da terra, sem respeito pelas leis e equilíbrios que gerem a criação, introduz desarmonias que alteram o plano de Deus e destroem a vida; a poluição, a destruição das florestas e o envenenamento dos mares, a acumulação incontrolada dos lixos e excedentes da civilização, são atentados contra o projeto do Deus criador e têm, como resultado final, a destruição da qualidade de vida dos próprios seres humanos. Ora, nós devíamos colaborar com Deus na contínua recriação do mundo, não na sua destruição.
A criação não terminou há alguns milhões de anos atrás… Pelos séculos fora, Deus tem continuado a recriar o mundo, de acordo com o seu plano original. Compete-nos a nós, hoje, colaborar com Deus e fazer o que estiver ao nosso alcance para que o plano de Deus para o mundo se realize. A tarefa dos homens não é destruir o mundo “bom” do “sonho” de Deus, mas completar a atividade criadora de Deus. Nessa atividade criadora colabora, de modo tão especial, cada catequista.
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Que Deus vos proteja e abençoe por toda a eternidade.


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