«Homem e mulher os criou»
- Cláudia Pereira
- 1 de dez. de 2025
- 6 min de leitura

O destino do ser humano - Homem e Mulher
Algumas das perguntas mais fascinantes, mais inquietantes, mais desafiadoras e também mais dramáticas que têm sido inventadas dizem respeito ao próprio ser humano, à sua vida, ao seu destino… Quem são, de onde vêm e para onde vão os seres humanos que caminham pela terra? Qual o sentido da sua vida e da sua peregrinação? Como se articula a relação do homem com Deus? Qual a relação entre o homem e os outros seres criados? Que têm os seres humanos de tão essencial, de tão original que os faz diferentes de todas as outras criaturas que Deus colocou sobre a terra? Qual o destino do ser humano?
O homem é uma realidade paradoxal, feita de luz e de sombra… A sua complexidade desconcerta-nos e assusta-nos; mas, em compensação, o seu mistério encanta-nos e não cessa de nos espantar.
Os seres humanos são capazes das mais extraordinárias realizações… É o homem, com a sua inteligência, que é o grande responsável pelas extraordinárias conquistas da ciência e da técnica que têm revolucionado o mundo, que nos têm proporcionado um substancial aumento da duração e da qualidade de vida, que têm permitido vencer muitas das doenças e dores que desfiguram a humanidade, que nos têm ensinado a organizar em moldes mais racionais as sociedades; é a tenacidade e o empenho do espírito humano que nos têm permitido superar as crises e as fases de sombra de uma história humana nem sempre linear, nem sempre coerente, nem sempre racional, nem sempre feita à medida do homem e da sua plena realização; é o entusiasmo e a coragem de tantos homens e mulheres comprometidos com as causas da justiça, da paz, do desenvolvimento, do respeito pelos direitos, pela dignidade e pela igualdade fundamental de todos os seres humanos que têm criado no coração de tantos homens e mulheres dinamismos novos de esperança; é a capacidade de amar, de se doar, de servir de tantos homens e mulheres, muitas vezes anónimos, que têm dado ao nosso mundo um pouco mais de calor, de amor, de humanidade… A este lado luminoso dos seres humanos contrapõe-se, frequentemente, um lado sombrio… Muitas vezes os homens investem as suas melhores capacidades na criação de mecanismos de exploração, de injustiça, de violência, de destruição, que geram sofrimentos inenarráveis em milhões de homens e mulheres; muitas vezes os seres humanos optam por trilhar caminhos de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência, que destroem a criação “boa” de Deus e põem em causa o plano de Deus para o mundo e para a humanidade.
O que é o homem no plano de Deus?
Ao criar os seres humanos, o que é que Deus quis fazer? Na perspetiva do projeto de Deus, qual é o lugar e o papel que os seres humanos são chamados a viver e a desempenhar sobre a terra?
Os catequistas de Israel preocuparam-se em responder a estas questões… Há 3.000 anos, no “relato jahwista sobre as origens” (Gen 2,4b-25), eles diziam que o homem era um ser “modelado” por Deus do barro da terra, mas que tinha também uma dimensão divina, um “espírito de vida” de Deus que o tornava diferente de todas as outras criaturas. Para esses catequistas, o homem era o centro da criação e tudo – árvores, rios, animais – tinha sido colocado por Deus sob a autoridade do homem. O fim de todos os outros seres criados era ajudarem o homem a ser feliz e a realizar-se plenamente. Os seres humanos – diziam, ainda, os catequistas de Israel – foram criados para o amor, para a comunhão, para a relação, e só dessa forma se realizam plenamente; por isso, Deus fê-los homem e mulher, da mesma “carne”, da mesma substância, e “deu-os” um ao outro para se completarem e amarem. Outros catequistas de Israel – os tais que nos deixaram o “relato sacerdotal sobre as origens” (Gen 1,1-2,4a) – apresentavam o homem e mulher criados “à imagem e semelhança de Deus”, como o ponto mais alto do projeto criador de Deus. Na perspetiva desses catequistas, Deus quis que os seres humanos crescessem e se multiplicassem, enchessem e dominassem a terra (cf. Gen 1,28-30). Naturalmente, falar neste contexto no “domínio da terra” não significa a exploração egoísta da natureza, como se o homem tivesse ficado com direitos absolutos sobre a criação; mas é uma forma de sublinhar que Deus colocou toda a criação nas mãos dos seres humanos para que eles, sempre de olhos postos no plano de Deus, pudessem continuar essa tarefa colossal de continuar, pelos séculos fora, a construir o mundo. Os dois relatos, embora diferentes quanto à linguagem e quanto às imagens, estão de acordo quanto ao essencial… Antes de mais, quanto à afirmação da dignidade do ser humano, que se distingue de todos os outros seres criados pois nele brilha uma centelha divina: é animado pelo sopro de vida do próprio Deus. No projeto de Deus, o homem e a mulher são seres dotados de uma suprema dignidade, contra a qual ninguém pode atentar; e, qualquer crime que ponha em causa a vida, os direitos ou a dignidade de um ser humano, é um crime contra o projeto de Deus.

O ser humano como o centro de todo o universo que Deus fez aparecer
A reflexão dos catequistas bíblicos está de acordo, também, nesta questão: tudo é criado para o homem e para a mulher, e tudo lhes é entregue por Deus. Subjacente à perspetiva dos autores bíblicos, está a ideia de que Deus tem em vista o bem e a felicidade do homem quando pensa e concretiza essa extraordinária obra que é a criação. Tal não significa, contudo, que o homem se apresente como um dominador egoísta, que utiliza a seu bel-prazer a criação, alterando a harmonia e o equilíbrio que Deus quis imprimir na sua obra… Se os seres humanos se relacionarem com o resto da criação de uma forma agressiva e prepotente, irão alterar a ordem “boa” que Deus introduziu no seu projeto e a própria criação revoltar-se-á, destruindo a felicidade do homem.
Os catequistas de Israel estão, ainda, de acordo em definir o ser humano como um ser com uma vocação relacional, um ser-para-os outros, que só se realiza plenamente através do amor… Por isso, dizem os catequistas bíblicos, ninguém se realiza sozinho, ninguém é autossuficiente, ninguém se basta a si próprio (“não é bom que o homem esteja só”). De acordo com o plano de Deus, os seres humanos são criados para viver o amor, para partilhar a vida, para embarcar em dinamismos de comunhão. Por isso, Deus fez os seres humanos homem e mulher, dois seres diferentes mas da mesma proveniência e com a mesma dignidade, que se completam através do amor. É dessa forma que os seres humanos encontram a alegria, a felicidade, a plena realização, o sentido pleno para as suas vidas.
Finalmente, os autores bíblicos ensinam que os seres humanos foram eleitos por Deus para colaborarem com Ele na obra da criação. O homem e a mulher são, diante dos outros seres criados, os mandatários do Deus criador; e, pela história fora, eles têm como missão continuar a recriar o mundo de acordo com o projeto original de Deus. Trata-se, para os seres humanos, de uma extraordinária responsabilidade mas, também, de um imenso desafio: fazer com que o “sonho” de Deus se concretize, sem extravios nem adulterações. É preciso, ainda, dizer que a revelação plena do projeto de Deus para o ser humano aparece incarnada em Jesus – o Deus que se fez uma pessoa como nós, que assumiu o risco da fragilidade inerente à nossa condição humana, que veio ao nosso encontro e construiu a sua casa no meio de nós para nos apresentar, na sua pessoa, aquilo que nós devemos ser, a nossa vocação fundamental, a realidade para a qual nós devemos tender… Cristo é o Homem na sua máxima perfeição, a meta para onde devemos caminhar. É esta Pessoa e o modo de nós sermos pessoa que nos ensinou que o catequista deve comunicar, como alguém que, a partir da sua experiência de Cristo, convoca e educa discípulos de Jesus.
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Que Deus vos proteja e abençoe por toda a eternidade.



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