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A Sagrada Família: Os pastores chegam com os seus presentes. - Parte XLVIII

  • Cláudia Pereira
  • 4 de jan.
  • 10 min de leitura

Visões da Beata Catarina Emmerick

A Beata Ana Catarina Emmerick (em alemão: Anna Katharina Emmerich), nasceu em 8 de setembro de 1774 em Coesfeld e faleceu em 09 de fevereiro de 1824 em Dülmen na Alemanha. Foi uma freira agostiniana, grande mística e estigmatizada, elevada aos altares pelo Papa São João Paulo II a 3 de outubro de 2004. Ana Catarina Emmerick é notável pelas suas visões sobre a vida e a paixão de Jesus Cristo, e pela forma como se uniu a Cristo nos seus sofrimentos.


Parte XLVIII - Os pastores chegam com os seus presentes

A Adoração dos Pastores. 1606-1607. Giovanni Lanfranco
A Adoração dos Pastores. 1606-1607. Giovanni Lanfranco

Herodes reinou quarenta anos. Durante sete anos, não foi independente; mas desde aquele tempo oprimia o país e cometia atos de crueldade. Morreu, creio, no sexto ano da vida de Jesus; a sua morte foi mantida em segredo por algum tempo.

Herodes foi sempre sanguinário e até nos seus últimos dias fez muito mal. Eu vi-o a arrastar-se no meio a uma ampla sala acolchoada, com uma lança ao seu lado, a querer ferir as pessoas que se aproximavam dele.

Jesus nasceu mais ou menos no trigésimo quarto ano do seu reinado. Cerca de dois anos antes da entrada de Maria no templo, Herodes mandou fazer algumas construções ali. Ele não reconstruiu o templo, mas fez algumas reformas e melhorias.

A fuga para o Egito ocorreu quando Jesus tinha nove meses, e a matança dos inocentes ocorreu durante o segundo ano da idade de Jesus. O nascimento de Jesus aconteceu num ano judaico de treze meses, que era um ajuste semelhante aos nossos anos bissextos. Acredito também que os judeus tinham meses de vinte dias, duas vezes ao ano, e um de vinte e dois dias. Ouvi algo sobre isto, a propósito dos dias de festa; mas agora, resta-me apenas uma lembrança confusa.

Vi que várias mudanças foram feitas no calendário. Isto aconteceu ao sair de um cativeiro, enquanto se trabalhava na reconstrução do Templo. Vi o homem que mudou o calendário, e também já soube o seu nome.


Os pastores chegam com os seus presentes

Na madrugada após o nascimento de Jesus, os três pastores mais velhos chegaram à Gruta do Presépio com as oferendas que tinham reunido. Estas eram constituídas por pequenos animais com alguma semelhança a veados. Se eram cabritos, eram muito diferentes dos do nosso país, pois eram de constituição leve e ágil, com pescoços compridos e olhos claros e belos.

Seguiam ou corriam ao lado dos pastores, que os guiavam com cordas finas. Os pastores transportavam também grandes aves vivas debaixo dos braços e aves mortas penduradas nos ombros.


Adoração dos Pastores. 1620. Frei Juan Bautista Maino
Adoração dos Pastores. 1620. Frei Juan Bautista Maino

Ao chegar, bateram timidamente à porta da gruta, e São José saiu ao encontro deles. Contaram a José, à entrada da gruta, o que o anjo lhes tinha anunciado e que tinham vindo prestar homenagem ao Menino da Promessa e oferecer-Lhe oferendas. José aceitou as oferendas e permitiu que conduzissem os animais para o espaço que formava uma espécie de adega perto da entrada lateral da gruta. De seguida, conduziu-os até à Virgem Santíssima, que estava sentada no chão perto da manjedoura, com um tapete debaixo de si e o Menino Jesus ao colo.

Os pastores, com os seus cajados apoiados nos braços, ajoelharam-se e choraram de alegria. Permaneceram ajoelhados durante muito tempo, saboreando uma grande doçura interior, e depois entoaram o cântico angélico de louvor e um Salmo que me escapa à memória. Quando estavam prestes a partir, Maria colocou o Menino nos seus braços, um após o outro. Chorando de emoção, devolveram o Menino a Maria, antes de se retirarem.

À noite, vieram da torre dos pastores, a quatro léguas da gruta do Presépio, outros pastores com as suas mulheres e filhos, trazendo presentes. Trouxeram pássaros, ovos, mel, novelos de fio de diversas cores, pequenos feixes que pareciam de seda bruta, e ramos de uma planta parecida com junco. Essa planta tem espigas cheias de sementes grandes. Depois de entregar esses presentes a São José, aproximaram-se humildemente da manjedoura, ao lado do qual estava Maria sentada. Saudaram a Mãe e o Menino; depois, de joelhos, cantaram belos salmos, o Gloria in excelsis dos anjos e alguns outros muito breves. Eu cantei com eles. Cantavam em várias vozes e eu fiz uma vez a voz alta. Lembro-me mais ou menos do seguinte: «Oh Menininho, abençoado como a rosa, pareces semelhante a um mensageiro de paz!».

Os três pastores mais velhos regressaram um após outro e ajudaram José a tornar a Gruta do Presépio e os seus arredores mais confortáveis. Vi também várias mulheres piedosas com a Virgem Santíssima, a realizarem-lhe alguns serviços. Eram essénias que viviam no vale, não muito longe da Gruta do Presépio, em pequenas celas rochosas contíguas. Possuíam pequenos jardins perto das suas celas e ensinavam as crianças da sua comunidade. São José convidara-as, pois conhecia-as desde a sua juventude. Quando se escondia na Gruta do Presépio, longe dos seus irmãos, visitava estas mulheres piedosas que habitavam na encosta da rocha. Elas, por sua vez, vinham à Virgem Santíssima, trazendo pequenos objetos de necessidade e feixes de lenha. Cozinhavam e lavavam para a Sagrada Família.

Nascimento de Jesus. 1980. Del Parson
Nascimento de Jesus. 1980. Del Parson

Alguns dias após o nascimento de Jesus, presenciei uma cena comovente na Gruta do Presépio. José e Maria estavam junto à manjedoura, contemplando com emoção o Menino Jesus, quando, de repente, também o burro se ajoelhou e baixou a cabeça até ao chão. Maria e José choraram.

Noutra ocasião, vi Maria junto à manjedoura. Enquanto contemplava a Criança, uma profunda convicção a invadiu: viera à Terra para sofrer. Isto fez-me lembrar uma visão que tive anteriormente, na qual me foi mostrado como Jesus, ainda no ventre da Sua Mãe e desde o momento do Seu nascimento, sofreu.

Vi sob o coração de Maria uma glória e, dentro dela, uma Criança brilhante e resplandecente. Ao contemplá-la, parecia que Maria pairava sobre ela, envolvendo-a. Observei a Criança a crescer e todos os tormentos que da Crucificação lhe foram infligidos. Era uma visão triste e terrível! Chorei e solucei em voz alta. Vi outras figuras à sua volta batendo, empurrando, açoitando-a e coroando-a. Depois colocaram a Cruz sobre Ele, pregaram-n’O na mesma e trespassaram-n’O na lateral. Vi toda a Paixão de Cristo na Criança. Foi uma visão terrível! Enquanto a Criança estava pendurada na Cruz, disse-me: «Tudo isto sofri desde a minha conceção até aos meus trinta e quatro anos, quando a minha Paixão se consumou exteriormente.» (O Senhor morreu aos trinta e três anos e três meses de idade.) «Vai e anuncia isto aos homens!» Mas como posso anunciá-lo aos homens?

O Menino Jesus adormecido. 1695. Francesco Trevisani
O Menino Jesus adormecido. 1695. Francesco Trevisani

Vi Jesus também como o Menino recém-nascido, e vi como muitas das crianças que foram ao Presépio maltrataram o Menino Jesus. A Mãe de Deus não estava ali para proteger a Criança, e as crianças foram com todo o tipo de varas e ramos e golpearam-no na cara até que o sangue jorrasse. A Criança estendeu mansamente as suas pequenas mãos diante do rosto para se proteger dos golpes. As crianças mais pequenas eram as que golpeavam com mais maldade. Os pais de algumas até torciam e enrolavam as varas para elas. Traziam espinhos, urtigas, chicotes, varinhas de todos os tipos, cada uma com o seu significado. Um deles trouxe uma varinha muito fina, semelhante a um junco. Mas, quando estava prestes a atingir a criança, a varinha partiu-se e caiu sobre si própria. Eu conhecia várias das crianças. Algumas andavam a gabar-se das suas roupas finas, mas eu despi-as e chicoteei algumas delas com força.

Enquanto Maria ainda estava de pé, junto à manjedoura em profunda meditação, alguns pastores aproximaram-se com as suas esposas, cerca de cinco pessoas ao todo. Para lhes dar espaço para se aproximarem da manjedoura, a Virgem Santíssima recuou um pouco para o local onde dera à luz o Menino. As pessoas não chegaram a adorar, mas contemplaram o Menino profundamente comovidas e, antes de partirem, inclinaram-se sobre Ele como se o estivessem a beijar.

A Manhã da Natividade. 1912. Frank Cadogan Cowper

Era de dia. Maria estava sentada no seu lugar habitual com o Menino Jesus ao colo. Estava envolto em panos, apenas as mãos e o rosto estavam livres. Maria tinha nas mãos algo semelhante a um pedaço de linho com o qual estava ocupada. José estava junto à lareira perto da entrada da gruta e parecia estar a fazer uma prateleira para colocar alguns vasos.

Eu estava de pé ao lado do burro. Então, entraram três mulheres essénias idosas, que foram cordialmente recebidas, embora Maria não se levantasse. Trouxeram vários presentes: pequenos frutos, pássaros com bicos vermelhos em forma de furador, tão grandes como patos, que transportavam pelas asas, rolos ovais com cerca de dois centímetros e meio de espessura, um pouco de linho e outras coisas. Tudo foi recebido com rara humildade e gratidão. As mulheres estavam muito silenciosas e recolhidas. Profundamente comovidas, olharam para o Menino, mas não lhe tocaram. Quando se retiraram, foi sem despedidas nem cerimónia. Enquanto isso, eu observava atentamente o burro. Tinha um dorso muito largo, e eu pensei: «Que bom animal! Carregaste um grande fardo!» e quis tocar-lhe, para ver se era real. Passei a mão pelos seus pelos, e eram macios como seda.

Chegaram então, duas mulheres casadas com três meninas de cerca de oito anos. Pareciam ser estrangeiras e pessoas de distinção, que vinham em obediência a um chamamento mais miraculoso do que o recebido por qualquer visitante anterior. José acolheu-as com muita humildade. Traziam presentes de tamanho mais pequeno do que os outros, mas de maior valor: grãos numa tigela, pequenos frutos e um conjunto de folhas grossas e triangulares de ouro com um selo estampado. Pensei: “Que estranho! Parece a representação do olho de Deus! Mas não! Como posso comparar o olho de Deus com terra vermelha!”

Maria levantou-se e colocou o Menino nos braços das mulheres. Ambas o seguraram por um instante, orando em silêncio com o coração elevado, e depois beijaram-no. As três meninas ficaram em silêncio, profundamente impressionadas. José e Maria conversaram com os seus visitantes e, quando partiram, José acompanhou-os por um troço do caminho.

Ah! Se pudéssemos, como estas mulheres, contemplar a beleza, a pureza, a sabedoria inocente de Maria! Ela sabia todas as coisas! Mas, na sua humildade, parece inconsciente dos seus dons. Como uma criança, ela baixa os olhos; e quando os levanta, o seu olhar, como um relâmpago, como a verdade, como um raio de luz imaculada, penetra profundamente. Isto porque ela é perfeitamente pura, perfeitamente inocente, cheia do Espírito Santo e sem qualquer reflexão sobre si mesma. Ninguém consegue resistir ao seu olhar.

Estas pessoas pareciam ter vindo de muito longe, e secretamente, pois evitavam ser vistas na cidade. Durante estas visitas, José comportava-se com grande humildade, retirando-se e observando de algum canto distante.

Vi também a criada de Ana e um velho servo vindos de Nazaré para o Presépio. A criada era viúva e parente da Sagrada Família. Trouxe todo o tipo de pertences de Ana para Maria, com quem passou a viver. O velho derramou lágrimas de alegria e voltou com notícias para a Ana.

Cena do Massacre dos Inocentes. 1824. Leon Cogniet
Cena do Massacre dos Inocentes. 1824. Leon Cogniet

No dia seguinte, vi a Virgem Santíssima e o Menino Jesus saírem da Gruta do Presépio com a criada durante algumas horas. Saindo da porta da gruta, Maria voltou-se para o abrigo da direita, deu alguns passos em frente e escondeu-se naquela gruta lateral onde, no nascimento de Jesus, brotara uma fonte. Ela permaneceu ali quatro horas, porque alguns homens, espiões de Herodes, tinham vindo de Belém, em consequência do boato espalhado pelas palavras dos pastores, de que ali ocorrera um milagre em relação a uma criança. Estes homens encontraram São José em frente à Gruta do Presépio. Depois de trocarem algumas palavras com ele, partiram com um sorriso desdenhoso perante a sua pobreza, humildade e simplicidade. Maria, depois de ter ficado quatro horas escondida na gruta lateral, voltou ao presépio com o Menino Jesus.

A Gruta do Presépio era isolada e muito bem situada. Ninguém de Belém lá ia, apenas os pastores, cujos deveres os chamavam para lá. Ninguém em Belém se interessava pelo que se passava lá fora, pois, em consequência da chegada de estrangeiros, a cidade estava toda animada, com muita compra e venda. O gado era comprado e abatido, pois muitas pessoas pagavam os seus impostos com o gado. Havia muitos pagãos na cidade a trabalhar como servos.

A maravilhosa aparição dos anjos logo se espalhou entre os habitantes dos vales montanhosos, próximos e distantes, e com ela o nascimento do Menino na gruta. Os estalajadeiros que hospedaram a Sagrada Família na sua viagem vieram, um após outro, prestar homenagem Àquele que, sem o saberem, tinham acolhido. Vi o estalajadeiro da última estalagem, primeiro, a enviar presentes através de um criado, e depois a vir pessoalmente honrar o Menino.

Vi também a boa esposa daquele homem que no dia 20 de novembro tinha sido tão rude com José, e outros pastores e pessoas de bem a virem ao Presépio. Estavam muito comovidos com o que viram. Todos estavam em trajes festivos e subiam a Belém para o sábado. A boa esposa podia ter ido a Jerusalém, que ficava mais perto, mas preferiu vir a Belém. Sentiu-se muito feliz depois por ter oferecido essa prova do seu afeto.


A Adoração dos Pastores. 1886-1894. James Jacques Joseph Tissot.
A Adoração dos Pastores. 1886-1894. James Jacques Joseph Tissot.

Um parente de José, ao lado da casa do qual a Sagrada Família tinha passado a noite do dia 22 de novembro. Era pai daquele Jonadab que, na crucificação de Jesus, lhe ofereceu uma faixa de linho. Também tinha vindo à Gruta do Presépio a caminho de Belém para o sábado. José foi muito bondoso com ele. Este parente ouvira falar, através de pessoas da sua região, da maravilhosa situação de José; por isso, veio trazer-lhe presentes e visitar o Menino Jesus e Maria. Mas José não aceitou nada, apenas pediu emprestado algum dinheiro, penhorando a pequena burra a este familiar, com o entendimento de que poderia ser resgatada pela mesma quantia recebida. José precisava desse dinheiro para gastar nos presentes que deveria levar para a cerimónia de circuncisão e para a comida que haveria de oferecer.

Depois disto, Maria, José, a criada e dois dos pastores que estavam em frente à entrada celebraram o sábado na Gruta do Presépio. Uma lâmpada com sete pavios foi acesa e, sobre uma pequena mesa coberta com tecido branco e vermelho, foram colocados os rolos de oração.

Os numerosos alimentos oferecidos pelos pastores eram dados aos pobres ou distribuídos para entretenimento dos outros. Os pássaros eram pendurados num espeto diante do fogo, virados de vez em quando e polvilhados com a farinha de uma planta semelhante a um junco, que era muito abundante na região de Belém e Hebron. Dos seus grãos preparava-se uma geleia branca e brilhante e assavam-se bolos. Vi sob a lareira, buracos bem quentes e limpos nos quais os pássaros podiam ser assados.

Depois do sábado, as mulheres essénias prepararam uma refeição sob os caramanchões que José, com a ajuda dos pastores, tinha erguido à entrada da gruta. José foi à cidade contratar sacerdotes para a circuncisão do Menino. A gruta foi limpa e arrumada. A divisória que José tinha colocado na passagem foi retirada, e o chão foi coberto com tapetes, pois nesta passagem perto da Gruta do Presépio, estava preparado o local para a cerimónia.

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