Luísa Piccarreta: A Pequena Filha da Divina Vontade
- Cláudia Pereira
- há 22 horas
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O texto que se segue, contém a tradução do texto original em italiano de uma biografia de Luísa Piccarreta, escrita pelo Padre Bernardino Giuseppe Bucci, em 1980. O Padre Bucci é uma das últimas testemunhas pessoais vivas de Luísa. É um sacerdote franciscano e vive atualmente em Trinitapoli (Foggia), não muito longe de Corato. O Padre Bucci é sobrinho de Rosaria Bucci, «a confidente fiel e silenciosa de Luísa», que viveu com ela e a assistiu durante quarenta anos. O padre Bernardino Bucci visitou a casa de Luísa entre 1942 e 1947 — os últimos cinco anos da sua vida — quando ainda era criança. Apresenta momentos marcantes da vida de Luísa, bem como anedotas e circunstâncias únicas dos seus encontros pessoais e diretos com ela.

Luísa Piccarreta
Eu era apenas uma criança quando, no colo da minha mãe, a ouvi falar pela primeira vez de «Luísa, a Santa».
A minha mãe pegou numa fotografia emoldurada da Luísa, mostrou-ma e disse: «Dá-lhe um beijo, porque a Luísa é a Protetora da nossa casa. Ela é uma senhora muito, muito boa, tanto que o Senhor está sempre perto dela e concede-lhe tudo o que ela pede.»
Este foi o meu primeiro contacto com a Luísa, o que despertou em mim uma grande curiosidade e um grande desejo de a conhecer e de falar com ela. Isso não foi difícil para mim, porque a minha tia Rosaria Bucci vivia perto da Luísa desde a sua infância.
Finalmente, chegou o dia tão ansiado. Para me recompensar por uma boa ação que eu tinha feito, a minha tia levou-me à casa da Luísa. Foi um encontro inesquecível para mim, que ficará para sempre gravado na minha memória: assim que entrei no seu pequeno quarto, uma senhora idosa, com um olhar muito doce e penetrante, apareceu diante dos meus olhos de criança. Estava toda de branco, sentada na cama, a fazer tombolo [renda]. Luísa sorriu-me docemente, chamou-me para junto dela e falou-me de muitas coisas. Não me lembro bem de todas as suas palavras, mas sei que me falou do Menino Jesus e me pediu para fazer um pequeno sacrifício por Ele: «Hoje é domingo e vais comer carne em casa. Deixa, por amor a Jesus, um pedacinho de carne, e verás que Jesus te amará sempre e...»
Este primeiro encontro com a Luísa ficará na minha vida como um ponto de referência ao longo dos caminhos, nem sempre floridos, da minha juventude e do meu sacerdócio.
Seguiram-se muitos outros encontros, cada vez mais íntimos. De facto, quando cresci o suficiente para poder ir sozinho à escola, costumava ir à casa da Luísa para fazer vários recados. Levava grandes flores frescas que o meu pai acabara de colher no campo. Outras vezes, ia acompanhado da minha irmã Gemma, que, durante algum tempo, ia à casa da Luísa quase todos os dias para aprender o trabalho do tombolo. Estando na sala com a piedosa senhora, a nossa tarefa era apanhar do chão todas as agulhas que tinham caído enquanto a Rosária e a Luísa trabalhavam no tombolo. Surgiu uma competição para apanhar as agulhas entre mim e a minha irmã, sob o olhar satisfeito e benevolente da Luísa, que nos recompensava sempre dando-nos pequenas imagens sagradas.
Estes foram os encontros mais característicos e as mais belas memórias da minha infância.
A estas memórias pessoais, não posso deixar de acrescentar o que é descrito por uma testemunha de peso, Mons. Don Luigi Doria, Arcipreste de Corato e Vigário Geral da Arquidiocese de Trani, figura eminente do sacerdócio e pastor de almas:

«Ainda em criança, ouvia constantemente o nome de uma mulher que estava acamada há mais de quarenta anos. A minha mãe gostava muito dela e falava frequentemente dela. Especialmente nos momentos de tristeza e angústia, corria para junto dela para implorar as suas orações. Passados vinte anos, voltei a visitar esta alma e encontrei-a sempre igual: serena e sorridente, trabalhando com os fusetti do tombolo nas mãos, ou com o rosário entre os dedos, em atitude de oração.»
Para todos aqueles que a viam e a visitavam, ela tinha sempre a doce palavra da Vontade de Deus nos lábios e era capaz de trazer a todos paz para as suas almas e consciências, e sorrisos às famílias.
Ao entrar no seu pequeno quarto, voltando o olhar para a direita, o visitante encontrava uma cama rodeada por uma cortina. Nessa cama, uma mulher repousava há cerca de setenta anos, sempre serena e fresca como uma margarida. De estatura pequena, olhos vivos, olhar penetrante, a cabeça ligeiramente inclinada para a direita, esta virgem vivia sozinha com a sua irmã – nunca um lamento, nunca um ato de raiva. Podia-se vê-la sempre sentada, apoiada em três almofadas, com um crucifixo – no qual ela queria modelar toda a sua existência – à sua frente, pendurado na barra da cortina.
Levantando o véu da cortina, podia-se ver um altar, sobre o qual todas as manhãs um padre celebrava o Sacrifício da Missa. Perto dele, um armário onde eram guardadas as vestes sagradas. Nada mais, exceto uma varanda de onde, de vez em quando, costumava apanhar um pouco de ar e sol.
Setenta anos na cama! Uma longa existência inteira. Bem, de 1878 a 1947, esta alma passou a sua vida na solidão, no sofrimento, no silêncio e na oração. Esta alma tinha um nome conhecido por muitos: Luísa Piccarreta, chamada "Luísa, a Santa".

A infância de Luísa
Luísa era uma menina vivaz e robusta, como muitas outras meninas daquelas famílias saudáveis e patriarcais que ainda existem na nossa terra, que adoram viver no campo aberto, entre o aroma do tomilho, o balido das ovelhas e a harmonia dos animais domésticos que ainda povoam os nossos quintais.
A nossa Apúlia, austera e rude, laboriosa e sóbria, refletia a natureza dos seus habitantes. Uma terra tenaz, uma terra com um coração de pedra, na qual Deus quis cumprir a Sua antiga promessa: «…Dar-vos-ei um coração novo e uma mente nova. Tirarei o vosso coração obstinado de pedra e dar-vos-ei um coração obediente. Colocarei o meu Espírito em vós e farei com que sigais as minhas leis e cumprais todos os mandamentos que vos dei» (Ez. 36, 26-27). De facto, o Senhor abençoou esta terra, dando-lhe numerosas almas que, nos últimos tempos, atraíram multidões de fiéis a Deus. Todos se lembram de São Padre Pio de Pietrelcina, que transformou a rocha do Gargano num farol de luz tanto para fiéis como para incrédulos. Neste maravilhoso desígnio de Deus, destaca-se, não em último lugar, Luísa Piccarreta, «A PEQUENA FILHA DA VONTADE DIVINA».
Luísa nasceu em Corato, na província de Bari, na manhã de 23 de abril de 1865. Os seus pais, Vito Nicola Piccarreta e Rosa Tarantino, tiveram quatro filhas: Maria, Rachele, Luísa e Angela. Luísa nasceu na manhã de domingo «in Albis» (o primeiro domingo após a Páscoa); para a sua família, este acontecimento foi um presságio feliz e, nesta alegria, nessa mesma noite, o seu pai levou-a à igreja, onde recebeu o Sacramento do Santo Batismo.

No colo da mãe e do querido pai, Luísa aprendeu os primeiros elementos da fé. Os pais foram para ela as primeiras testemunhas dessa fé, forte e clara, que constitui a verdadeira riqueza das nossas famílias.
Durante a sua infância, Luísa tinha um temperamento bastante medroso; isto era consequência de algumas visões (que Luísa chamava de sonhos) do espírito maligno, que a aterrorizava continuamente, ao ponto de a fazer tremer, banhada em suor frio. Ela tentava superar esse estado emocional escondendo-se atrás da cama ou buscando refúgio nos braços da mãe, nos quais se sentia segura. Estas coisas aconteciam-lhe especialmente quando ia com a família para a quinta, chamada «Torre Disperata», situada no território de Murge, a 27 km de Corato. Quem conhece estes lugares pode apreciar a solenidade do silêncio que ali reina, e as colinas, ensolaradas, nuas e pedregosas.
Quando era assaltada pelo espírito maligno, naquela solidão, Luísa recorria à oração. Rezava incessantemente à Santíssima Virgem, pedindo com lágrimas e confiança filial para ser libertada de tal angústia. Os seus tenros anos passaram assim, amargurados e infelizes, vivendo sempre isolada, sem nunca participar nas brincadeiras inocentes, típicas das crianças.
A Divina Providência conduzia esta criança por esses caminhos misteriosos, de tal forma que Luísa não conhecia outra alegria senão Deus e a Sua Graça. De facto, um dia o Senhor dir-lhe-ia: «Escuta, percorri a terra, uma e outra vez; olhei para todas as criaturas, uma a uma, para encontrar a mais pequena de todas. E entre todas elas encontrei-te a ti, a mais pequena de todas. Gostei da tua pequenez e escolhi-te. Confiei-te aos meus Anjos para que te guardassem, não para te tornarem grande, mas para preservarem a tua pequenez. Agora quero começar a grande obra da realização da minha Vontade. Não te sentirás maior por causa disso; pelo contrário, a minha Vontade tornar-te-á mais pequena, e continuarás a ser a filhinha do teu Jesus – a filhinha da minha Vontade» (Vol. 12, 23-03-1921).

Um dia, sendo assaltada pelo espírito maligno, aterrorizada, Luísa voltou-se para a sua Mãe Celestial, que benignamente lhe falou: «Porque temes? O teu Anjo está ao teu lado, Jesus está no teu coração e a tua Mãe Celestial mantém-te sob o Seu manto. Por que temes, então? Quem é mais forte? O teu Anjo da Guarda, o teu Jesus, a tua Mãe Celestial ou o inimigo infernal? Por isso, não fujas, mas fica, reza e não temas.» Naquele instante tudo desapareceu; a serenidade invadiu-a e nada mais lhe aconteceu.
Quando tinha nove anos, com o coração cheio de alegria, recebeu Jesus Eucarístico pela primeira vez e, desde então, aprendeu a permanecer em oração e adoração durante horas perante o Santíssimo Sacramento, na sua igreja paroquial de Santa Maria Greca.
Tornou-se «filha de Maria» aos onze anos e, com grande fervor, difundiu a devoção à sua Mãe Celestial entre as meninas da sua idade. Esta seria uma das características fundamentais da sua espiritualidade; de facto, um dia escreveria um Livro de Meditação sobre Nossa Senhora (A Virgem Maria no Reino da Divina Vontade).
A voz de Jesus conduziu Luísa a um desapego total de tudo e de todos. Para tal, Ele deu-lhe como modelo a vida humilde, discreta e silenciosa da Sagrada Família de Nazaré. Durante toda a sua vida, Luísa esteve submetida aos cuidados e à obediência dos seus confessores, embora, extraordinariamente, estes nunca tenham sido os seus diretores espirituais. Este papel foi assumido pelo próprio Jesus, que a moldou entre mil sofrimentos e humilhações, para fazer dela um vaso de eleição e de Graça, e para promover o Reino da VONTADE DIVINA entre os homens.
Cristo Sofredor
Quando tinha treze anos, estando em casa, Luísa ouviu um grande alvoroço vindo da rua e saiu para a varanda para ver o que se passava.

Uma visão terrível surgiu diante dos seus olhos: a rua estava repleta de gente a gritar e de soldados armados que, contendo a multidão, conduziam três prisioneiros. Entre eles, Luísa reconheceu Jesus, carregando a cruz nos ombros. Afligida e aterrorizada, Luísa contemplou esta triste procissão, mas quando o Divino Condenado se encontrava debaixo da sua varanda, Ele ergueu a cabeça e disse: «Anima, aiutami!» («Alma, ajuda-me!»).
Perante esta cena, Luísa gritou e perdeu os sentidos.
Este acontecimento extraordinário marcou para Luísa um ponto de viragem decisivo na sua vida, porque naquele dia aceitou o seu estado de vítima de expiação pelos pecados dos homens.
Humilhações e sofrimentos
Depois de aceitar o seu papel de vítima, Luísa via-se frequentemente num estado de inconsciência total: o seu corpo enrijecia, tornando-se duro como pedra, ao ponto de não ser possível movê-lo ou levantá-lo. Eram fenómenos tão particulares e únicos que eram considerados estranhos até mesmo pelos membros da sua própria família, que a repreendiam e a humilhavam continuamente. No entanto, a sua família estava imensamente preocupada, especialmente os seus pais, que a submeteram a consultas médicas, nas quais os médicos ficavam mudos e perplexos perante um caso clínico tão extraordinário, incapazes de fazer qualquer diagnóstico. Tudo isto foi para Luísa uma provação de sofrimento sem precedentes, pela qual o Senhor a faria passar.

Quando as esperanças dos médicos se esgotaram completamente, a sua família recorreu, angustiada, à última esperança: os sacerdotes. O padre Lojodice foi chamado à sua casa; um padre passionista de vida santa, que vivia com a sua família devido à supressão das ordens religiosas, ocorrida após a unificação da Itália.
O padre Lojodice aproximou-se do leito de Luísa, abençoou-a e, para espanto de todos, ela recuperou imediatamente as suas faculdades normais. Este facto, tão extraordinário, gerou a convicção, em Luísa e nos seus familiares, de que o padre Lojodice era um santo. A partir desse dia, o padre Lojodice ia ter com Luísa sempre que era chamado pela família; e todas as vezes, sem falhar, a sua bênção libertava Luísa do seu estado de imobilidade.
Pouco tempo depois, o padre Lojodice partiu de Corato, tendo sido chamado de volta ao convento pelos seus superiores. Este acontecimento causou grande tristeza tanto a Luísa como à sua família. Luísa lamentou-se com Jesus: «Porque provocas todas estas coisas quando vens a mim? Não podemos amar-nos sem que os outros saibam de nada? Tem piedade de mim! Liberta-me desta terrível humilhação.»
Mas Jesus respondeu: «Não prometeste sofrer por mim? Então, agora, deixa-te guiar por Mim pelos caminhos do sofrimento.»
Após a partida do padre Lojodice, foi chamado outro sacerdote, que a abençoou e, para espanto do próprio sacerdote e de todos os presentes, Luísa recuperou a consciência. Este facto produziu em Luísa a convicção de que todos os sacerdotes eram santos. No entanto, um dia, o Senhor disse-lhe: «Não porque todos eles sejam santos – se ao menos o fossem! Todos eles têm este poder porque são sacerdotes, e todos os fiéis estão submetidos à sua autoridade sacerdotal, criada e desejada por Mim. Deves estar sempre submetida à sua autoridade sacerdotal, deves obedecer sempre e nunca ir contra a sua vontade, porque eles são a continuação do meu sacerdócio no mundo. A indignidade de alguns não anula o seu sacerdócio.»
As humilhações e os sofrimentos que Luísa teve de suportar durante este período foram indescritíveis. Era incompreendida por todos – considerada orgulhosa, falsa, uma farsante e alguém que queria chamar a atenção para si própria. Estas ideias eram também partilhadas pelos seus pais, que pensavam em qualquer forma – desde a persuasão até à violência – para fazer com que aquela cabeça maluca mudasse. Mas as humilhações mais terríveis que ela sofreu vieram dos padres. Quando eram chamados pela sua família para a libertar do seu habitual estado de imobilidade, recusavam-se a ir; e, se fossem, sobrecarregavam-na com as mais amargas repreensões. Uma vez, deixaram-na nesse estado durante vinte e cinco dias.
O desejo de se tornar freira

Durante esse período, Luísa manifestou aos pais o seu desejo de se tornar freira de clausura. Ao ouvirem isso, os pais opuseram-se veementemente. Um dia, após a sua insistência, a mãe levou-a de charrete até Trani, ao convento das freiras de clausura, onde conversaram com a Madre Superiora. Mas a sua mãe, não querendo realmente que a pequena Luísa se enclausurasse num mosteiro, revelou, com extremo detalhe, todos os defeitos e os fenómenos estranhos que rodeavam a sua filha, acrescentando que era uma menina doente e de constituição fraca. Obviamente, estes detalhes provocaram uma recusa definitiva por parte da Superiora, que a dispensou imediatamente, dizendo que a vida no mosteiro era muito dura e que a sua saúde não teria suportado a regra monástica.
Assim, Luísa regressou a Corato com o coração cheio de tristeza e melancolia, derramando a sua dor a Jesus: «Não me tinhas prometido que eu me tornaria freira?» O Senhor respondeu: «Serás freira, mas a verdadeira pequena freira do meu Coração. Permanecerás fechada num quarto, sem nunca te moveres, no qual rezarás, sofrerás e estarás sempre comigo.»
E assim aconteceu. Luísa permaneceu pregada à sua cama de sofrimento durante cerca de setenta anos.
Calvário
Ao ver que Luísa definhava cada vez mais a cada dia que passava, a sua família decidiu levá-la para o campo, para a sua própria quinta, a fim de que recuperasse a saúde. O Senhor esperava-a, para a fazer passar a um novo estado de vida. Um dia, enquanto meditava no silêncio solene da região de Murge, o maligno lançou o seu assalto final – tão violento que a fez perder completamente a consciência. Reduzida a um estado lastimável, teve uma visão de Jesus a sofrer pelos pecadores e, conquistada pela Graça, consentiu plenamente na Vontade Divina, aceitando o estado perene de vítima, para o qual Jesus e a Santíssima Virgem a chamavam.

Tinha apenas dezasseis anos; e a partir desta idade começaram aqueles sofrimentos atrozes que a imobilizaram para o resto da vida no seu leito de dor. Um dia, ainda na casa da quinta, Luísa perdeu a consciência novamente, não por causa do maligno, mas pela Vontade de Jesus, que a fez participar dos sofrimentos da Sua Paixão. Ao sair do êxtase, Luísa sentiu grande repugnância por qualquer alimento; por isso, recusava tudo e, se às vezes, forçada pelos pais, comia alguma coisa, vomitava imediatamente. A sua família atribuiu isto a uma nova e inédita mania, e por isso teve de sofrer novas e amargas repreensões. No entanto, esta era a Vontade de Deus, que estava a preparar Luísa para viver apenas da Vontade Divina, de tal forma que esta fosse o seu único alimento. De facto, este fenómeno extraordinário durou até à sua morte.
Luísa comia muito pouco, apenas uma vez por dia e por obediência ao seu confessor; mas, imediatamente a seguir, vomitava docemente a comida, inteira, fresca e perfumada. Escrevo estas páginas e confirmo este fenómeno porque fui testemunha do mesmo. Um dia, enquanto eu estava na casa de Luísa, a minha tia Rosária Bucci, sua fiel e silenciosa confidente, preparou comida para quatro pessoas: para ela própria, para mim, para Angelina, irmã de Luísa, e para Luísa.
Fiquei surpreendido ao ver que o almoço de Luísa consistia em apenas 4 ou 5 orecchiette [massa com a forma de «orelhinhas», comida típica da Apúlia] e algumas uvas, que eu próprio tinha trazido uma hora antes. Tudo estava colocado num pratinho. Depois de a minha tia ter colocado queijo ralado por cima, disse-me: «Leva isto à Luísa». Surpreendido por esta refeição estranha, levei a comida para o pequeno quarto da Luísa. Ela recebeu-me com um sorriso, colocou o prato na mesinha de cabeceira, fez o sinal da cruz e começou a comer. Sentindo o meu espanto, a Luísa sorriu-me novamente, depois pegou numa uva e ofereceu-ma. Quando a Luísa terminou o seu almoço (por assim dizer), tocou um pequeno sino e, pouco depois, a minha tia apareceu, levando uma pequena bandeja nas mãos. Aí começou a cena que nunca poderei esquecer: a Luísa regurgitou tudo de uma forma estranha; digo isto porque não senti repugnância; pelo contrário, uma fragrância estranha difundiu-se por todo o quarto. Então, retirando a mesinha de cabeceira, a minha tia fechou as persianas e disse: «Vem, Peppino, vamos comer, pois a Luísa tem de dormir.» A minha tia trouxe para a mesa a comida que a Luísa tinha trazido, e lá ficou durante o nosso almoço. Contei as orecchiette – eram seis – e todas as uvas, inteiras e brilhantes – precisamente onze.
Este facto impressionou-me tanto que, depois do almoço, corri para casa e contei tudo à minha mãe, que não demonstrou qualquer surpresa, pois já sabia disso. Lembro-me de ela ter dito esta frase: «A Beata Rosária… quantas vezes lhe disse para me trazer essas sobras, mas ela nunca me fez a vontade.» Os confessores opunham-se a este novo prodígio e ordenavam-lhe que comesse, mesmo que ela vomitasse tudo pouco tempo depois.
Até aos vinte e dois anos, a vida de Luísa foi atormentada pela sua necessidade de se oferecer perpetuamente ao Senhor e pelas humilhações atrozes que vinham da sua família e, especialmente, dos padres, que, como já foi mencionado, se recusavam a ir a sua casa para a chamar de volta à normalidade, quando ela era apanhada pelo seu estado de petrificação.
Isto inscreveu-se no desígnio divino, o que, para Luísa, constituía uma cruz extremamente pesada de carregar. A necessidade de que a autoridade sacerdotal concedesse ou retirasse os seus sofrimentos constituía o maior sofrimento para Luísa. A mãe de Luísa, profundamente entristecida pelas contínuas humilhações recebidas dos sacerdotes – que consideravam estes fenómenos como feitiços ou, no máximo, loucuras de uma rapariga fanática –, dirigiu-se a chorar ao Bispo da época, que, contra todas as expectativas, se interessou pelo caso e tomou medidas para que os sacerdotes fossem a casa de Luísa sempre que as circunstâncias o exigissem. Após uma reflexão madura, o bispo considerou oportuno designar um confessor específico, que, incomodado por ter de se deslocar continuamente – quase todos os dias – para a despertar do seu estado particular, proibiu-a de repetir este fenómeno. Mas Nosso Senhor interveio diretamente para fazer com que o confessor mudasse a sua decisão, valendo-se da epidemia de cólera que, em 1887, fez muitas vítimas em Corato. Luísa pediu ao seu confessor que lhe permitisse continuar no seu estado de vítima de reparação e expiação pelos homens. O confessor concedeu-lhe permissão, com a condição de que ela rezasse ao Senhor para que cessasse o flagelo da cólera.
A cólera desapareceu imediatamente após três dias de sofrimento por parte de Luísa – que permanecera imóvel na sua cama de dor. O confessor teve de ceder perante a evidência do milagre. O bispo nomeou um sacerdote de grande prestígio como confessor habitual de Luísa, – Dom Michele De Benedictis – a quem Luísa abriu a sua alma minuciosamente; algo que não lhe tinha sido possível com outros sacerdotes. Ela própria nunca conseguiu explicar porquê.
Para compreender bem esta alma, Dom Michele impôs limites aos seus sofrimentos; mais ainda, ela não podia fazer nada sem o seu consentimento e, se necessário, tinha de resistir até mesmo ao Senhor.
Um dia, Luísa pediu permissão ao confessor para sofrer na cama durante um certo tempo, cerca de quarenta dias. «Se esta é a Vontade de Deus, fica», disse Dom Michele; mas a cama nunca mais foi abandonada por Luísa, que tinha então, em 1888, vinte e três anos, e permaneceu, sempre sentada, pregada à cama, durante os cinquenta e nove anos até à sua morte, ocorrida a 4 de março de 1947.
É de notar que, até então, embora tivesse aceitado o estado de vítima, Luísa permanecia na cama de vez em quando, porque a obediência aos seus confessores nunca lhe tinha permitido permanecer acamada de forma contínua.

Após os quarenta dias, também Dom Michele, incomodado por ter de ir todos os dias acordá-la, ordenou-lhe bruscamente que não voltasse a cair naquele estado. As razões de Luísa, que afirmavam que essa era a vontade expressa por Deus, nada podiam fazer; por isso, Luísa teve de resistir a Nosso Senhor para não cair no seu habitual estado de petrificação.
Mas o Senhor queria essa alma só para Si, para a conduzir pelos caminhos das Suas graças celestiais. Assim, para convencer o confessor, o Senhor revelou a Luísa a guerra iminente que iria eclodir entre a Itália e a Etiópia.
D. Michele, sempre firme na sua decisão, mostrou-se cético perante tais notícias, mas qual não foi o seu espanto quando, alguns dias depois, verificou a veracidade do acontecimento. É preciso ter em conta que, naquela época, os meios de comunicação não estavam ao alcance de todos e, numa pequena cidade afastada do sul de Itália, as notícias não chegavam com facilidade – e o que se pensava em Roma era desconhecido para a maioria. Embora com relutância, Don Michele teve de se submeter à Vontade de Deus; e assim, Luísa não voltou a sair da cama, nunca mais, durante o resto da sua vida. Era a véspera de Ano Novo de 1889.
Em 1898, Dom Gennaro Di Gennaro tornou-se o novo confessor designado pelo bispo, cargo que ocupou durante 24 anos. Como primeira medida, Dom Gennaro, um «sacerdote esclarecido e prudente», percebendo as maravilhas que o Senhor estava a operar nesta alma, ordenou-lhe que pusesse por escrito tudo o que a Graça de Deus operava nela. Luísa certamente não esperava esta ordem, à qual teve de se submeter com docilidade, embora isso colidisse fortemente com a sua humildade.
Luísa deveria escrever tudo desde o início, sem omitir nada; e deveria entregar-lhe tudo, dia após dia. Embora chorando, Luísa submeteu-se. A desculpa de ser uma mulher analfabeta (ela tinha frequentado apenas até ao segundo ano do ensino básico) não surtiu efeito: o seu confessor era inflexível. Assim, começou a escrever os seus volumes (36) sob a forma de um diário. Era 28 de fevereiro de 1899. Escreveu o último capítulo do Volume 36 em 28 de dezembro de 1938. Assim que a ordem para o fazer cessou, deixou de escrever.
O Dom de Deus
O Senhor revela a Luísa que deseja conceder-lhe um dom extraordinário: O DOM DA VONTADE DIVINA. Esta graça particular que Deus concede à criatura a partir de Si mesmo constitui um dom especial e gratuito…

No silêncio mais completo e no maior recôndito desta Alma, Deus quis enviar a mensagem da Vontade Divina, na qual o Espírito Santo deseja renovar a face da terra: o Reino de Deus na terra como no Céu. Assim, inicia-se nas almas um novo evento de graça, através do qual Deus deseja enriquecer a humanidade. Estamos em novembro de 1900 – o século que verá as forças do mal serem desencadeadas, os valores cristãos comprometidos, a voz do Vigário de Cristo pouco ouvida e protestos a todos os níveis. Também a Santa Igreja de Deus sofrerá o seu martírio silencioso e, perante os desastres humanos, apenas a Vontade de Deus será a sua força no seu caminho espinhoso. E precisamente neste século, tão conturbado, o Senhor concede uma nova era, que invadirá a Sua Igreja e todos os homens de boa vontade, e na qual o triunfo da Graça será o objetivo final: «Não temais: eu estarei convosco até ao fim dos tempos».
Para ser digna deste maravilhoso dom, o Senhor comunica-Se com Luísa, como com uma alma que deve dispor-se a:
«Conformidade perfeita com a minha Vontade, porque só me poderás amar perfeitamente se Me amares com a minha própria Vontade. Mais ainda, digo-te que, ao amares-Me com a minha própria Vontade, chegarás a amar-Me, e ao teu próximo, com a minha mesma forma de amar.
Profunda humildade, colocando-te, diante de Mim e das criaturas, como a última entre todas.
Pureza em tudo, porque qualquer mínima falta contra a pureza, tanto no amar como no agir, reflete-se toda no coração, e este fica manchado. Por isso, quero que a pureza seja como o orvalho sobre as flores ao nascer do sol, que, com os seus raios a refletirem-se nelas, transforma aquelas pequenas gotas em tantas pérolas preciosas, de modo a encantar as pessoas. Da mesma forma, se todas as vossas obras, pensamentos e palavras, batimentos cardíacos e afetos, desejos e inclinações, forem adornados com o orvalho celestial da pureza, tecerás um doce encanto, não só para o olho humano, mas para todo o Céu.
A obediência, que deve estar ligada à minha Vontade, pois se esta virtude diz respeito aos superiores que vos dei na terra, a minha Vontade é a obediência que diz respeito diretamente a Mim; tanto é assim que se pode dizer que tanto uma como a outra são virtudes de obediência – com esta única diferença: uma diz respeito a Deus e a outra diz respeito aos homens. No entanto, ambas têm o mesmo valor, e uma não pode existir sem a outra; por isso, deveis amar tanto uma como a outra da mesma forma.»
Depois, acrescentou: «Sabe que, a partir de agora, viverás com o meu Coração, e deves ver as coisas como o meu Coração as vê, para que eu possa encontrar a minha satisfação em ti. Por isso, tem cuidado, pois este já não é o teu coração, mas o Meu.»
Isto aconteceu a 22 de novembro de 1900. Tal dom especial de Deus é uma prerrogativa exclusiva de Luísa, mas deve ser estendido a todos os homens que aceitem este novo evento de graça.
A Vítima
Luísa nunca abandonou o seu leito de sofrimento e permaneceu sentada na mesma posição durante 64 anos consecutivos – sem contar os primeiros seis anos – sem nunca ter contraído as feridas no corpo, que são inevitáveis durante doenças prolongadas.

De manhã, Luísa encontrava-se encolhida na cama, como que petrificada, a tal ponto que ninguém conseguia movê-la, até que o seu confessor ou qualquer outro sacerdote entrasse em oração para a abençoar; só então Luísa começava a mover-se e a libertar-se. Assim, a sua irmã Angelina e a fiel Rosária voltavam a colocá-la na sua posição habitual (sentada), enquanto o padre iniciava a Santa Missa num altar móvel, que se encontrava no seu quarto. Luísa participava na Missa com grande devoção; recebia a Comunhão todos os dias e, em seguida, permanecia em meditação durante cerca de duas horas. Depois, começava o seu trabalho de tombolo. Muitas raparigas frequentavam a sua casa, trabalhando e rezando com Luísa, e meditando juntas sobre a Paixão de Jesus Cristo. Todas as manhãs, antes de começar o dia, por obediência, Luísa tinha de ler ao seu confessor tudo o que tinha escrito na noite anterior e entregá-lo a ele. Isto durou até 1938. Estes escritos formaram 36 volumes, alguns dos quais foram publicados.
Por volta da uma da tarde, Luísa comia uma pequena refeição, que vomitava pontualmente. Depois, permanecia em meditação durante algumas horas e, em seguida, iniciava o seu trabalho habitual. Por volta da meia-noite, Luísa começava a escrever tudo o que o Senhor tinha operado nela durante aquele dia. Desta forma, o seu dia terminava. Este modo de vida perdurou até à sua morte.
Em 1922, o seu confessor, o padre Gennaro, faleceu e, por ordem do bispo, o padre Francesco De Benedictis assumiu o seu lugar. O padre Francesco faleceu em janeiro de 1926. O bispo nomeou então um jovem sacerdote, o padre Benedetto Calvi, pároco de Santa Maria Greca, que a assistiu até à sua morte. Esta extraordinária figura de sacerdote acolheu com cuidado maternal todas as preocupações, as alegrias e os sofrimentos desta alma, privilegiada por Deus.
Luísa foi atingida por tempestades inéditas, que certamente teriam esmagado qualquer outra pessoa, mas que foram superadas pela sua profunda humildade, obediência e fé, – verdadeiro alimento desta alma escolhida. O seu confessor e as pessoas que lhe eram próximas, – especialmente a sua fiel Rosária – sofreram tremendamente e, enquanto os fracos (de espírito) a abandonavam, permaneceram ao seu lado com humildade e fé, até ao triunfo da Obra de Deus.
Rumo ao Pôr-do-Sol
Depois de a tempestade ter passado e as águas se terem acalmado, Luísa continuou a sua vida humilde e silenciosa, sempre assistida com amor pela sua fiel Rosária e por todas as almas que tinham sido conquistadas pela sua espiritualidade, especialmente as irmãs Cimadomo.

Foi neste último período que tive a singular sorte de a conhecer: mais concretamente, o meu contacto com Luísa estende-se de 1942 a 1947. Luísa escreveu 36 volumes de altíssima espiritualidade, alguns dos quais foram publicados em diferentes edições e difundidos por todo o mundo.
Aos 81 anos, dez meses e nove dias, o seu parêntese na história terminou – para se projetar em Deus. A alegre passagem ocorreu a 4 de março de 1947, às seis horas da manhã. A sua doença (bronquite), a única doença clínica de que alguma vez deu notícia, durou apenas quinze dias.
Fenómenos extraordinários na sua morte
Como se pode ver na imagem, o corpo de Luísa encontra-se sentado na pequena cama, tal como quando estava viva; nem foi possível esticá-lo, mesmo com a força de várias pessoas. Ela permaneceu nessa posição; por isso, foi necessário construir um caixão especial. O seu corpo não apresentou o «rigor mortis» típico de todos os corpos humanos após a morte. Isto foi observado todos os dias em que esteve exposta aos olhos do povo de Corato e aos de muitos estrangeiros que vieram a Corato com o objetivo de ver e tocar com as próprias mãos este caso único e maravilhoso: todos conseguiam, sem qualquer esforço, mover a cabeça para todos os lados, levantar-lhe os braços e dobrá-los, dobrar-lhe as mãos e todos os dedos. Até as pálpebras podiam ser levantadas e os seus olhos brilhantes, que não estavam velados, podiam ser observados. Luísa parecia estar viva, como se estivesse a dormir, enquanto um grupo de médicos, reunido para o efeito, após um exame cuidadoso do seu corpo, declarou que Luísa estava de facto morta e que, por isso, se tratava de uma morte verdadeira e não de uma morte aparente, como todos tinham imaginado.

Foram obrigados, com o consentimento da Autoridade Civil e do Responsável pela Saúde, a mantê-la no seu pequeno leito de morte durante 4 dias – repito, quatro dias – sem que se verificasse qualquer sinal de decomposição, a fim de satisfazer a multidão que se aglomerava à sua volta, especialmente as pessoas que não eram de Corato, e que invadiam a casa, chegando mesmo a recorrer à violência.
Luísa costumava dizer que tinha nascido de cabeça para baixo, por isso era justo que a sua vida fosse de cabeça para baixo, em comparação com as vidas das outras criaturas. Também a sua morte foi de cabeça para baixo… Permaneceu sentada, como sempre tinha vivido, e sentada foi levada para o cemitério num caixão construído para o efeito, com as laterais e a frente de vidro, para que todos a pudessem ver, como uma rainha no seu trono, vestida de branco, com o «FIAT» no peito – a pequena filha da Divina Vontade, a quem o Senhor quis retirar do seu silêncio e humildade apenas na sua morte.

Estavam presentes mais de quarenta sacerdotes, o Capitolo [as autoridades eclesiásticas] e o clero local; as irmãs, que a transportavam aos ombros por turnos, e uma imensa multidão de cidadãos. As ruas por onde a procissão deveria passar estavam abarrotadas – de forma incrível; até as varandas e os telhados das casas estavam repletos de gente, e a procissão avançava com grande dificuldade. O funeral foi celebrado na Igreja Matriz por todo o Capitolo.
Todo o povo de Corato acompanhou o corpo de Luísa até ao cemitério, e todos tentaram levar para casa uma lembrança das flores que tinham acompanhado e tocado o corpo. Alguns anos mais tarde, o corpo de Luísa foi transferido para a sua igreja paroquial de Santa Maria Greca, onde ela espera humildemente pela sua glorificação.
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Que Deus vos proteja e abençoe por toda a eternidade.




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