A devoção ao Sagrado Coração de Jesus
- Cláudia Pereira
- há 9 horas
- 5 min de leitura

O culto ao Sagrado Coração de Jesus é muitas vezes associado à devoção privada ou ao Apostolado da Oração, mas existe algo mais profundo nessa devoção, que não é opcional, e faz parte do dogma cristão. Mas qual é a natureza do Coração de Jesus e qual a razão desta devoção, que nutriu a fé de tantos homens e mulheres ao longo dos séculos, e que nos pode ajudar a progredir na santidade?
Porque existe a devoção ao Sagrado Coração de Jesus?
O fundamento sólido para o culto ao Sagrado Coração é aquele descrito por Pio XII, na encíclica Haurietis aquas. Com esse documento, o Papa procurou remediar duas graves tendências que, embora se opusessem uma à outra, tinham afinal o mesmo efeito nocivo. Por um lado, alguns devotos do Coração de Jesus acabavam por se perder em práticas externas e, por conseguinte, nunca atingiam o núcleo da devoção; por outro, a população, maioritariamente masculina, tinha a ideia pré-concebida, de que o amor ao Sagrado Coração de Jesus, estava apenas destinado às mulheres, julgando-se demasiado cultas para tais sentimentalismos.
O Papa adverte, que a fonte principal do culto ao Coração de Jesus é um dogma católico, que professa a fé em Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Pela humanidade de Cristo, Deus tem um coração, porque a sua humanidade está pessoalmente unida à sua divindade: trata-se, como a Igreja definiu dogmaticamente, da união hipostática.
O Amor se fez Carne
Ao assumir um corpo humano, a Segunda Pessoa da Trindade assumiu também toda a condição da natureza humana, exceto o pecado. Deste modo, Ele passou a experimentar as paixões humanas: Jesus emocionou-se diante da multidão que caminhava como ovelha sem pastor; angustiou-se na noite do Horto das Oliveiras; irritou-se com a hipocrisia dos fariseus etc. O grande mistério de Jesus encarnado no seio da Virgem Maria.
A partir da união hipostática, o Papa Pio XII, distingue três tipos de amores em Deus: o divino, o espiritual e o sensível. E, estando esses três amores perfeitamente unidos e ordenados, uma vez que entre eles “jamais se interpôs a mínima oposição e discórdia” (Haurietis aquas, n. 22), não só podemos, como devemos prestar-lhes toda reverência e adoração. Por isso, o Papa fez questão de recordar uma citação de São Basílio Magno, que fala sobre os sentimentos de Jesus: “É manifesto que o Senhor possuiu os afetos naturais, em confirmação da sua verdadeira, e não fantástica, encarnação; manifesto é também que ele repeliu como indignos da divindade os afetos viciosos, que mancham a pureza da nossa vida” (Epist. 261, 3: PG 32, 972). Não resta, a menor dúvida a respeito da qualidade dos afetos de Jesus: eles são sentimentos santos e, por estarem associados a uma Pessoa Divina, são merecedores de nossa adoração.
No Evangelho, vemos a manifestação desse afeto em várias ocasiões. Por exemplo: em Mt 11, 25, Jesus dá instruções para a missão de seus discípulos e, cheio de júbilo, louva o Pai: «Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos». Depois, em Mt 11, 28, convida os seus amigos para virem ao Seu encontro: «Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei».
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, é o oposto do romantismo mundano. Quantas vezes não somos iludidos pelas nossas paixões desordenadas e, movidos por uma atração maluca, tornamo-nos reféns das situações mais tolas e humilhantes? Por isso, Jesus revela o Seu Coração “manso e humilde” (Mt 11, 29) — cheio de amor divino, espiritual e sensível — e nos convida-nos a encontrar n'Ele o repouso e no Seu Sagrado Coração refúgio para as nossas almas.
Um coração novo
Os profetas do Antigo Testamento, denunciavam um grande mal da humanidade, que se referia à incapacidade de os homens prestarem um culto verdadeiro a Deus, porque os seus corações estavam corrompidos pelo pecado. Deus tinha um amor esponsal pelo seu povo, mas esse povo só lhe respondia com traições. Por isso o povo Israel, é tantas vezes comparado a uma adúltera, uma prostituta, que se vendeu a outros deuses.
No livro do profeta Ezequiel, essa denúncia é proclamada, mas Deus faz uma nova promessa aos homens: «Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo» (Ez 36, 26). Tal promessa, concretiza-se fundamentalmente em Jesus, cujo Coração sacratíssimo, que é livre de toda desordem do pecado, pode enfim amar totalmente a Deus. Jesus é o homem que presta um culto perfeito a Deus, o sacrifício de louvor e expiação para a redenção dos homens. E, unidos a Ele por meio do Batismo, recebemos esse “espírito novo”, do qual fala o profeta, para também amarmos com amor divino, espiritual e sensível. Nesse ponto está a realidade mais fundamental do Sagrado Coração de Jesus, pois, por meio d'Ele, alcançamos aquela transformação necessária à santificação: passamos por um “transplante” de coração!
Fonte de Salvação
Os santos, sobretudo a Virgem Santíssima, alcançaram esse grau de configuração ao Coração de Jesus, pelo que podiam dizer com São Paulo: «É Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20). A partir dessa união, eles puderam experimentar, num coração humano, o amor divino entre Pai e Filho. Porque, como também rezamos no Prefácio da Santa Missa, «é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo lugar, Senhor, Pai Santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso».
Não é de estranhar, que os Padres da Igreja tenham identificado a origem do sistema sacramental, de cuja eficácia depende a nossa justificação, precisamente no Coração aberto de Jesus, na cruz. Sobretudo a Eucaristia e o sacerdócio, surgiram naquela reunião, onde o Coração de Jesus desejava ardentemente fazer uma Última Ceia com seus discípulos (Lc 22, 15). Quantas glórias e riquezas vieram desse precioso dom: as graças de Maria, os sacramentos e, finalmente, o matrimónio espiritual com a Igreja, que foi selado pelo derramamento de seu próprio sangue. Por isso, o Papa Pio XII diz:
O sagrado coração de Jesus, é também símbolo legítimo daquela imensa caridade, que moveu o nosso Salvador a celebrar, com o derramamento do seu sangue, o seu místico matrimónio com a Igreja: “Sofreu a paixão por amor à Igreja que ele devia unir a si como esposa” (Haurietis aquas, n. 39).
Os dons do Espírito Santo são também dons do Coração de Jesus, porque Ele infunde nas almas a caridade divina e coopera com elas para a conversão dos pagãos. Um facto particularmente notável, foi a experiência mística que São Filipe Neri viveu há 475 anos, quando, durante uma oração, teve o seu coração literalmente alargado pela caridade divina, o que lhe quebrou duas costelas. Como Deus se utilizou desse santo sacerdote para a conversão das almas!
Do mesmo modo, nós também precisamos deixar-nos encher por este amor divino, para que as nossas vidas sejam um veredeiro testemunho para a conversão de muitos.
Adaptado de "A devoção ao Sagrado Coração de Jesus"
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Que Deus vos proteja e abençoe por toda a eternidade.




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