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Novena ao Sagrado Coração de Jesus por Santo Afonso Maria de Ligório

  • Cláudia Pereira
  • há 18 horas
  • 9 min de leitura
Sagrado Coração de Jesus rodeado de anjos. 1775. José de Paez
Sagrado Coração de Jesus rodeado de anjos. 1775. José de Paez

Sobre a devoção ao Coração adorável de Jesus (1)

A devoção de todas as devoções é o amor a Jesus Cristo, quando meditamos frequentemente no amor que este amável Redentor teve e tem por nós.

Chora, e chora com razão, um autor devoto, ao ver que muitos se empenham em praticar várias devoções, e negligenciam esta; e que muitos pregadores e confessores falam de tantas coisas, mas pouco falam do amor a Jesus Cristo; pois o amor a Jesus Cristo deve ser a principal, na verdade a única devoção de um cristão.

Pela mesma razão, esta deveria ser a única preocupação, a única meta, dos pregadores e confessores junto dos seus ouvintes e penitentes: instruí-los continuamente e inflamá-los no amor a Jesus Cristo. Desta negligência, sucede que as almas avancem pouco nas virtudes e continuem a apodrecer nos mesmos defeitos, caindo inclusive em pecados graves; porque pouco se preocupam e pouco são advertidas a adquirir o amor a Jesus Cristo, que é aquele cordão de ouro que une e prende as almas a Deus.

O Verbo Eterno veio ao mundo unicamente para isto: ser amado. «Eu vim trazer fogo à terra; e que quero eu, senão que ele se acenda?» (Lc 12, 49). Também foi para isto que o Pai Eterno o enviou ao mundo: a fim de nos revelar o seu amor e assim, atrair para si o nosso amor. O mesmo Pai nos garante, que tanto nos amará quanto nós amarmos Jesus Cristo: «O próprio Pai vos ama, porque vós me amastes» (Jo 16, 27). E que nos dará suas graças na medida em que lhas pedirmos em nome do Filho: «Se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará» (Jo 16, 23). E que nos introduzirá na bem-aventurança eterna, na medida em que nos encontrar conformados à vontade de Jesus Cristo: «Porque os que ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho» (Rm 8, 29). Contudo, jamais alcançaremos tal conformidade, e sequer a desejaremos, se antes não meditarmos no amor que Jesus Cristo teve por nós.

Aparição a Santa Margarida Maria Alacoque. 1895. Francesco Podesti
Aparição a Santa Margarida Maria Alacoque. 1895. Francesco Podesti

Para este mesmo fim, narra-se na vida de Santa Margarida Alacoque, religiosa da Visitação, que o nosso Salvador lhe revelou que era então sua vontade, que fosse instituída e propagada na Igreja, nos nossos tempos, a devoção e Festa em honra ao seu Sagrado Coração, a fim de que as almas devotas reparassem, com os seus gestos e afetos, as injúrias que tantas vezes seu Sagrado Coração recebe dos ingratos quando está exposto no [Santíssimo] Sacramento sobre os altares.

Narra-se, pois, na biografia da venerável religiosa escrita por Dom Languet, bispo de Sens, que, enquanto esta devota virgem estava um dia a rezar diante do Santíssimo Sacramento, Jesus Cristo fê-la ver o seu Coração rodeado de espinhos, com uma cruz rodeada de chamas posta acima dele; e depois lhe disse: «Eis o Coração que tanto amou os homens, e que por eles nada poupou, até se consumir para lhe dar- prova do seu amor; mas que em troca recebe, da maior parte, só ingratidões e ultrajes neste Sacramento de amor; e o que mais me entristece é que tais corações são consagrados a mim.» (2)

Ordenou-lhe então, que trabalhasse para que, na primeira sexta-feira após a oitava de Corpus Christi, fosse celebrada uma Festa particular em honra de seu divino Coração. E isto seria feito, primeiro, para que os fiéis lhe agradecessem o grande dom que lhes deixara, por exemplo, a venerável Eucaristia; segundo, para que as almas dele enamoradas, reparassem, com seus gestos e afetos, as irreverências e desprezos que Ele recebeu e recebe dos pecadores neste sacramento; terceiro, para que fosse compensada também a honra que Ele não recebe em tantas igrejas, onde é pouco adorado e reverenciado.

O Senhor prometeu-lhe que isto derramaria as riquezas do seu Coração sobre os que lhe rendessem tal honra, quer no dia da festa, quer em todos os outros dias em que o visitassem no Santíssimo Sacramento. Portanto, a devoção ao Coração de Jesus, não é senão um exercício de amor a este tão amável Senhor.


O objeto da devoção ao Sagrado Coração de Jesus

O objeto espiritual é o amor que arde no Coração de Jesus Cristo para com os homens, pois o amor é comumente atribuído ao coração, como se lê em tantos lugares: «Dá-me, filho meu, o teu coração» (Pr 23, 26). «O meu coração e a minha carne regozijam-se no Deus vivo» (Sl 83, 3). «O Deus do meu coração, e a minha herança para sempre» (Sl 72, 26). «A caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (Rm 5, 5).

O objeto material (ou sensível) desta devoção é o Sagrado Coração de Jesus, considerado não em si e separadamente, mas enquanto unido à santa humanidade e, por concomitância, à divina pessoa do Verbo.

Esta devoção tornou-se em pouco tempo tão difundida, que além de ter sido introduzida em muitos mosteiros de virgens consagradas, foram erigidas com a autoridade dos prelados, 400 confrarias consagradas ao Coração de Jesus, na França, em Saboia, em Flandres, na Alemanha, na Itália e mesmo em vários territórios pagãos. Tais confrarias foram enriquecidas pela Santa Sé com muitas indulgências, com faculdade também para erigir capelas e igrejas com o título do Sagrado Coração. (3)

Muitas pessoas devotas esperam pelo dia em que se obtenha da Santa Igreja também o Ofício e a Missa próprios, em honra ao Sagrado Coração de Jesus Cristo. (4) Sabemos que este requerimento foi feito por volta de 1726 pelo Pe. Galliffet, segundo o qual o Sagrado Coração de Jesus merecia esta especial veneração por ser o co-princípio sensível e a sede de todos os afetos do Redentor, especialmente do amor, e por ser também o centro de todas as dores internas que sofreu durante a vida. Mas, no meu modesto entender, o bom religioso não alcançou seu intento porque quis fundamentar a sua súplica em algo muito dúbio. Daí o terem objetado, e com razão, que é controverso se as afeições da alma se formam no coração ou no cérebro, pois mesmo grandes filósofos modernos, como Luís Muratori, (5) seguem a segunda opinião que o atribui ao cérebro; e que, portanto, como a controvérsia ainda não foi decidida pela Igreja, que prudentemente costuma se abster de tais decisões, o pedido não deveria ser deferido, pois se apoiava numa sentença incerta dos antigos. Ao contrário, diziam que, não havendo este especial motivo de veneração do coração, era inoportuno aquiescer ao pedido de um Ofício e Missa próprios, pois no futuro se poderia promover semelhantes pedidos também em honra do sagrado costado, da língua, dos olhos e de outros membros de Jesus Cristo. Encontrei isto escrito na célebre obra [“Sobre a beatificação dos servos de Deus e a canonização dos beatos”] de Bento XIV, de feliz memória. (6)

A esperança que temos de ver um dia aprovada tal concessão acerca do Coração de nosso Senhor, apoiamo-la não na referida sentença dos antigos, mas na opinião comum dos filósofos, antigos e modernos, segundo a qual o coração humano, embora não seja a sede dos afetos e o princípio da vida, é uma das fontes e órgãos primários da vida do homem, como diz o mesmo doutíssimo Muratori no lugar citado. Pois hoje é comum dizer, entre os estudiosos de ciências naturais, que a fonte e princípio da circulação do sangue é o coração, ao qual estão atreladas todas as artérias e veias; e por isso, não duvidam que é do coração que as outras partes do corpo recebem o movimento. Logo, se o coração é uma das fontes primárias da vida humana, não se pode duvidar que o coração tenha uma primazia nos afetos do homem. E a experiência atesta que as afeições internas de dor e amor causam impressão muito maior no coração que em todas as outras partes da pessoa. Acerca do amor podemos citar, além de outros tantos santos, a vida de São Filipe Néri, (7) onde se lê que, nos seus fervores para com Deus, o calor lhe saía do coração a ponto de se fazer sentir no peito, e o coração palpitava tão fortemente que empurrava a cabeça de quem o tocava; e o Senhor, com prodígio sobrenatural, dilatou as costelas do santo por causa do coração, o qual, agitado pelo ardor, procurava espaço onde se pudesse mover.

Santa Teresa escreveu na sua Vida (c. 29) que muitas vezes Deus mandou um anjo para lhe ferir o coração, e ela ficava depois inflamada do amor divino e sentia que estava queimando e desfalecendo: o que merece muita consideração, pois daí se percebe que Deus imprime os afetos de amor especialmente no coração dos santos; ademais, a Igreja concedeu aos carmelitas descalços a Missa própria em honra do coração transverberado de Santa Teresa.

Além disso, a Igreja considerou dignos de especial veneração os instrumentos da Paixão de Jesus Cristo, como a lança, os cravos e a coroa de espinhos, concedendo-lhes o Ofício e a Missa para culto especial. É o que refere Bento XIV, loc. cit. (n. 18), onde menciona especialmente as palavras de Inocêncio VI, que concedeu o Ofício da lança e dos cravos do Senhor: “Julgamos digno que seja celebrada uma festa especial dos instrumentos próprios da Paixão, sobretudo nos lugares onde se encontram estes instrumentos; e com ofícios divinos especiais, nós enriquecemos os fiéis cristãos na sua devoção a tais instrumentos”. (8)

Portanto, se a Igreja julgou por bem venerar com culto especial a lança, os cravos, os espinhos, pelo contato que tiveram com partes do corpo de Jesus Cristo que foram particularmente atormentadas na Paixão, muito mais podemos nós esperar a concessão de um culto especial em honra ao Sagrado Coração de Jesus Cristo, que teve tão grande parte nos seus santos afetos e nas imensas dores internas que sofreu ao ver os tormentos que lhe eram preparados e a ingratidão que lhe renderiam os homens após tanto amor. Por ele também foi causado o suor de sangue que depois o Senhor viveu no jardim, pois um tal suor não pode ser explicado senão por uma forte compressão do coração, pela qual o sangue, impedido no seu curso, foi forçado a difundir-se para fora: e tal compressão do Coração de Jesus Cristo certamente não derivou de outra causa que das penas internas de temor, tédio e tristeza, segundo o que escrevem os evangelistas: «E começou a sentir pavor e angústia» (Mc 14, 33; Mt 26, 37).

Mas seja como for, passemos agora a fomentar a devoção das almas enamoradas de Jesus Cristo, que na Novena ao Sagrado Coração Jesus o desejam honrar, no Santíssimo Sacramento, com santos pensamentos e afetos.


Meditações da Novena ao Sagrado Coração de Jesus

1.º Dia da Novena ao Sagrado Coração de Jesus: Coração amável de Jesus.

2.º Dia da Novena do Sagrado Coração de Jesus: Coração amoroso de Jesus.

3.º Dia da Novena do Sagrado Coração de Jesus: O Coração de Jesus que deseja ser amado.

4.º Dia da Novena do Sagrado Coração de Jesus: Coração doloroso de Jesus.

5.º Dia da Novena do Sagrado Coração de Jesus: Coração piedoso de Jesus.

6.º Dia da Novena do Sagrado Coração de Jesus: Coração generoso de Jesus Cristo.

7.º Dia da Novena do Sagrado Coração de Jesus: Coração agradecido de Jesus.

8.º Dia da Novena do Sagrado Coração de Jesus: Coração de Jesus desprezado.

9.º Dia da Novena do Sagrado Coração de Jesus: Coração fiel de Jesus.

(1) Texto escrito pelo próprio Santo Afonso de Ligório, em 1758. O Pe. Charles Keusch, C.Ss.R., anota que a intervenção deste Doutor da Igreja se mostrou decisiva para o Papa autorizar o culto ao Sagrado Coração na liturgia. De facto, em 1765, apenas sete anos depois que este livrinho foi publicado, foram aprovadas Missas ao Coração de Jesus em Portugal e na Polónia — início de um longo caminho que culminou, em 1856, com a extensão da festa para toda a Igreja, por iniciativa do Beato Papa Pio IX. (N.T.)

(2) Vie IV, 57. Cf. também Santa Margarida Maria Alacoque, Autobiografia (trad. de Lucas Ferreira). Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2022, pp. 134-135: «Eis aqui o Coração que, por tanto amar os homens, nada poupou, a ponto de se esgotar e de se consumir para mostrar-lhes seu amor; e, como reconhecimento, não recebo nada mais que a ingratidão da maioria desses homens, quer por sua irreverência e sacrilégio, quer pela frieza e desprezo que têm por mim neste sacramento de amor. Mas o que mais me toca é que são corações consagrados que agem desta maneira. É por isso que lhe peço que dedique a primeira sexta-feira após a oitava do Santíssimo Sacramento a uma festa especial para honrar meu Coração, comungando nesse dia e reparando Sua honra por meio de um reverente oferecimento, a fim de reparar as indignidades recebidas durante o tempo em que esteve exposto nos altares. Também lhes prometo que meu Coração se expandirá para derramar as influências de Seu amor divino abundantemente sobre todos aqueles que Lhe renderem esta homenagem e que trabalh[ar]em para que ela seja feita».

(3) Santo Afonso cita aqui, para comprovar o que diz, um Breve de Clemente X, dado em 1674, citado por São João Eudes em um de seus livros e mencionado pelo Pe. De Gallifet, SJ, noutro livro sobre o Sagrado Coração. Os editores observam tratar-se de “Breves de indulgências concedidas à Congregação de Jesus e Maria [fundada por São João Eudes] e às confrarias [a ela] anexas, sem que seus nomes, no entanto, constem expressamente na súplica [feita ao Papa] ou na resposta [dada por ele]”. (N.T.)

(4) Esperavam, evidentemente. Hoje o Sagrado Coração de Jesus é celebrado na Igreja com Ofício e Missa próprios, e ainda como solenidade, o mais alto grau possível para festas litúrgicas. (N.T.)

(5) La filosofia morale, Venezia, 1754, c. 2, p. 19.

(6) De Servorum Dei beatificatione et Beatorum canonizatione, l. 4, p. 2, cap. 30, n. 17, Bononiæ, 1738.

(7) Bacci, Vita I, 6.

(8) Dignum et conveniens reputamus si de ipsius Passionis specialibus Instrumentis, et præsertim in partibus in quibus Instrumenta ipsa dicuntur haberi, solemne atque speciale festum celebretur et fiat, Nosque illos Christifideles qui aliqua ex Instrumentis ipsis habere se gaudent, in eorum devotione divinis officiis atque muneribus specialiter foveamus.


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